Sábado, 18 de Novembro de 2017

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4 AGO 2010Por 08h:04
Arcângela Mota, TV Press

Originalidade é uma palavra que não se aplica bem à tevê. E, muito antes de Chacrinha alardear a famosa frase “Na televisão nada se cria, tudo se copia”, nos anos 70, a assimilação de programas feitos no exterior já era comum por aqui. Com o passar dos anos, a adaptação de “enlatados” se tornou cada vez mais frequente – e bem-sucedida – na tevê brasileira. Agora, reality shows com prêmios milionários, disputas para se tornar o novo ídolo, competições de dança e programas jornalísticos e de humor com estilos inusitados – todos idealizados em outros países – fazem sucesso em território nacional. E viram uma espécie de trunfo das emissoras na hora de definir a programação, já que são uma aposta bem menos arriscada para conquistar a audiência. “Comprar formatos é uma maneira de usar algo que deu certo em algum lugar. As emissoras precisam de referências antes de investir. Mas adaptar não é um processo automático”, pondera Marcelo Tas, apresentador do “CQC”, versão nacional do argentino “Caiga Quien Caiga”, um dos programas de maior audiência da Band.
O sucesso no exterior, no entanto, não é garantia de que o formato irá agradar o público brasileiro. E é por isso que, antes de levar as produções ao ar, as equipes se empenham em fazer modificações para dar uma identidade nacional aos programas. Foi o que aconteceu com o “Ídolos”, da Record, versão brasileira do “reality” britânico “Idols”, exibido em mais de 40 países e famoso por sua versão norte-americana, o “American idol”. “No início ainda seguíamos um estilo mais parecido com o original, mas na medida em que o programa foi se consolidando tivemos mais liberdade para ousar e fazer um programa com a cara do povo brasileiro”, lembra Fernanda Telles, diretora artística do “Ídolos”, destacando que a maior particularidade do programa são os participantes. “Os americanos são mais competitivos enquanto os brasileiros são mais solidários. Existe uma emotividade maior aqui”, compara.
E esse lado mais emotivo dos brasileiros raramente passa em branco na hora de adaptar os programas. Seja em reality shows ou dramaturgia, os dilemas pessoais costumam ganhar dimensões maiores aqui do que nos Estados Unidos e Europa, berço da maioria dos formatos de sucesso. Até mesmo quando os modelos são os famosos seriados policiais norte-americanos, marcados pela frieza e pragmatismo dos personagens. “Aqui há um interesse maior pelas relações humanas, decepções e amores interrompidos. Só ação não basta”, argumenta Wolf Maya, diretor do seriado “Na forma da lei”, da Globo, que, apesar das semelhanças estruturais com “Law & order”, não é uma versão brasileira da consagrada série norte-americana. “Sou aficionado por seriados e me inspirei em vários. É uma linguagem de comunicação muito contemporânea. Estamos aplicando uma dramaturgia mais concentrada”, conta.
O sucesso dos formatos estrangeiros no Brasil, além de se justificar pelos custos e riscos menores, se intensificou há pouco mais de uma década com o surgimento de produtoras especializadas em “reality shows”, um dos gêneros de maior sucesso atualmente. É o caso da holandesa Endemol, que vende os direitos de exibição de uma série de produtos que fazem sucesso na tevê aberta brasileira, como o “Big brother Brasil”, os quadros “Lata velha” e “Lar doce lar” do “Caldeirão do Huck”, o “Um contra cem”, do SBT, e o “Busão do Brasil”, da Band. “A Endemol dá liberdade para que cada produção local customize e adapte o produto à realidade do País. É um dos segredos do sucesso”, explica a diretora de produção da Endemol Brasil, Paula Cavalcanti.
Mas não é raro que programas nacionais com premissas parecidas com a de formatos estrangeiros sejam feitos aqui sem passar por uma produtora. É o caso do “Qual é o seu talento?”, do SBT, que, apesar das inúmeras semelhanças com o “Britain’s got talent”, não é definido pelo diretor do programa como uma versão brasileira do show de talentos britânico. “O ‘QST’ é um formato original, criado com base no show de calouros e outros quadros e competições do gênero. Não é um formato comprado e, por isso, não seguimos regras ou padrões internacionais”, defende o diretor Ricardo Mantoanelli.

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