Quinta, 23 de Novembro de 2017

Obra revê conceitos sobre a instituição do casamento

21 MAR 2010Por 04h:50
Os desafios da vida a dois são o tema de “O anel que tu me deste – o casamento no divã”, da terapeuta e escritora Lidia Rosenberg Aratangy. Lançado em 2007, o livro ganhou uma reedição pela Primavera Editorial, na qual a autora acrescentou dados estatísticos atualizados, capítulos novos – como a viuvez e a figura do novo pai – e indicações de livros e filmes que abordam as relações afetivas. Terapeuta de casais há mais de 30 anos, Lidia oferece ao leitor um rico painel de nuances. É impossível não se ver em algumas situações. Longe de ser um manual de receitas prontas ou um tratado psicanalítico, o livro dá uma boa chacoalhada em conceitos como a idealização do casamento como um conto de fadas ou a descrença total na instituição. Apesar das conquistas e brado de independência, por que a mulher ainda quer se casar? E o homem? São expectativas diferentes? LIDIA ROSENBERG ARATANGY – O desejo de formar uma família é soberano, tanto nos homens quanto nas mulheres. Maternidade e paternidade são apelos muito fortes em nossa cultura e, apesar de todas as variantes modernas, o casamento ainda é o caminho mais prático para isso. Generalizações à parte, as mulheres buscam uma complementação; os homens, estabilidade. As expectativas até são diferentes, mas não incompatíveis. Casamento ainda é visto como uma garantia? LIDIA – Não. Aprendemos que a vida não dá garantias. Não confiamos mais na estabilidade do emprego, nem acreditamos que um diploma de uma boa faculdade garanta um trabalho bem remunerado. Ninguém mais acredita que o casamento é o porto seguro, onde se pode ficar para sempre. Mas acredita que uma parceria amorosa com intenção de permanência é a maneira mais confortável de enfrentar intempéries. Quem procura ajuda, o homem ou a mulher? E quando as chances de retomar o relacionamento são grandes? LIDIA – A mulher, na maior parte dos casos. Aprendemos que podemos ser frágeis e pedir ajuda, enquanto eles acham que podem (e devem!) resolver sozinhos seus problemas. As chances de retomada são maiores enquanto o ressentimento não for maior do que a esperança. Como vê o casamento no modelo patriarcal e as variantes do casamento hoje, como poliamor, swing, etc.? LIDIA – Quanto ao modelo patriarcal, está em franca extinção no mundo. Sobre as variantes, revolução certamente não é (novidades são caminhos para evitar mudanças verdadeiras). É uma regressão, às vezes, pois muitos desses pactos são mais escravizantes do que libertadores. Indigestão, quando se desrespeita os limites próprios e do parceiro. Combustão, quando se exagera na dose. E evolução, quando as tentativas são feitas levando-se em conta os próprios limites, desejos e os sentimentos do outro. Quanto ao modelo patriarcal, está em franca extinção no mundo. Quando o casamento dá sinais de desgaste? LIDIA – Quando as brigas se tornam repetitivas, as tréguas são cada vez mais curtas e os ressentimentos, mais duradouros. Quando já não se escuta o parceiro, porque se acredita saber o que ele vai dizer; quando já não há mais sequer desentendimentos, porque ninguém mais busca o entendimento. A sobrecarga do trabalho doméstico é culpa da mulher? LIDIA – Existem pessoas dadas a lamúrias e essas não saberiam viver sem se queixar do peso que carregam sobre os ombros. Se alguém tenta aliviar-lhes o fardo, chegam a ficar ofendidas, como se, com isso, seu martírio fosse desqualificado. De fato, fizemos um péssimo marketing do serviço doméstico, ao contrário dos homens, que sempre nos levaram a crer que o universo do trabalho era sofisticado e desafiador. Não é de se estranhar que tenhamos lutado tanto para entrar no mundo até então deles, e que eles resistam tanto para entrar na vida doméstica. De fato, ambos mentiram: nem o mundo do trabalho é um suceder de desafios interessantes, nem cuidar da casa é necessariamente tedioso. Poucas alquimias se comparam à mágica transformação de um cruento pedaço de carne num sorriso de satisfação no rosto de pessoas amadas! Mas nem conquistamos nosso lugar no mundo do trabalho a partir do modelo masculino, nem eles encontrarão seu espaço no lar se não puderem errar e acertar do seu jeito masculino de ser. O casal deve pensar nos filhos antes de decidir se separar? LIDIA – Deve pensar neles antes, durante e depois da decisão de se separar. Isso não significa que os filhos constituam um impedimento absoluto à separação, mas que seus sentimentos devem ser respeitados e tratados com honestidade e carinho, com a garantia de que continuarão a ter pai e mãe, ainda que separados. E o casal deve fazer de tudo para que essa promessa seja cumprida, independentemente de ressentimentos. Muitos mantêm a fachada de casamento perfeito, como se frustrações, conflitos e tristezas devessem ser varridos para debaixo do tapete. O que pensa? LIDIA – Penso que o casal fatalmente vai começar a tropeçar nos calombos da sujeira que empurrou para debaixo do tapete. E daí ou vai dar de cara no chão ou vai procurar ajuda. Há mesmo uma tendência em nossa cultura de se comportar como se a frustração fosse desvio de rota, e não parte da bagagem humana. Assim, as pessoas vivem relações efêmeras ou fantasiosas, e criam filhos incapazes de tolerar frustrações, bom arsenal para dependentes de drogas. Qual o sentido de o casal discutir a relação? LIDIA – Para eles, a fala deve ter uma função operacional, isto é, serviria para provocar mudanças na realidade. Para elas, a conversa teria o objetivo de dar-se a conhecer, de traduzir e desvendar sentimentos do par, para, assim, aproximar um ao outro e ampliar a intimidade entre ambos O casal que constrói uma união honesta, duradoura e feliz deve alternar velas ao vento e porto seguro? LIDIA – Quem faz essas alternâncias é a vida, nenhum casal tem poder para decidir esse enredo. Parceiros sábios confiam e desfrutam dela. Já os imaturos vivem da nostalgia do vento no rosto, quando a vida oferece uma fase de calmaria, e anseiam pelo porto seguro, quando o vento sopra mais forte.

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