Quinta, 23 de Novembro de 2017

O vírus da paz

27 MAR 2010Por HÉLIO DE SOUZA FILHO04h:27
O presidente Lula já não surpreende, há tempo sua verdadeira personalidade foi decifrada. O que espanta é a falta de cerimônia com que diz o que lhe vem à cabeça, as artimanhas que usa para alcançar seus propósitos e a forma com que trata a população do país que o tem como presidente, como se desgovernasse uma nação de beócios. Agora quer ser Secretário Geral da ONU. Pobre mundo, ter que aturar o “nunca antes neste planeta”. Nos últimos anos a população brasileira, arrastada pelo projeto neomarxista do núcleo duro governista em que o presidente toma ares e forma de rainha da Inglaterra, tem convivido com propostas que comprometem a paz social, solapam a democracia, restringem o progresso em certas regiões e afetam a integridade territorial, bem como com denúncias e escândalos em que o único penalizado tem sido a lei, que, ao avesso de ser utilizada para promover a justiça, tem sido empregada para postergar julgamentos e tolher apurações, quando não para absolver culpados. Democracia, Soberania, Integração Nacional, Paz Social, Integridade Territorial e Progresso, é bom que nunca seja esquecido, devem constituir objetivos nacionais permanentes de qualquer país, da mesma forma que não se deve perder a noção de que os Estados podem sobreviver ao ceticismo, mas nunca à injustiça. Quem pensa, flexiona, e quem flexiona, deduz sem dificuldade ou iniqüidade, que entre Lula e o Politburo petista sempre houve um jogo de interesses, em que, o presidente, desprovido de competência, razão do reina, mas não governa e do assina, mas não lê, vale-se da aptidão intelectual dos integrantes do Comitê Central do partido, enquanto este, necessitado de popularidade, lucra com o carisma dele e pavimenta seu caminho ao poder, enquanto, ambos, se aproveitam da ingenuidade da população e logram a militância do partido. Lula sabe que foi e é usado, bem como que seu momento está próximo ao fim, da mesma forma que entende ser a ascensão plena ao domínio do país dos “cumpanhêro”, suas criaturas, o término de sua utilidade, da mesma forma que o Politburo acredita que a partir de 2011 ele será mais empecilho do que solução, portanto, livrar-se dele é mais que uma necessidade, é uma imposição. Diante disso procuram uma arrumação para o seu futuro que garanta os holofotes e o palanque dos quais se habituou e que o mantenha longe do Brasil, onde a presunção consolidada em 13 anos de candidaturas e oito anos de chefe de Estado, poderá tornar-se, no ostracismo ao qual todos os ex são condenados, o maior antagonista da República que o Comitê Central quer criar. As milhagens acumuladas em viagens para países quase desconhecidos da Ásia e nações obscuras da África; o perdão sistemático de dívidas de nações pobres, mesmo que reconhecidamente perdulárias; a solidariedade socialista para com hermanos sul-americanos na conivência aos prejuízos causados a empresas estatais brasileiras e na acomodação dos calotes aos empreendimentos privados; a cumplicidade sistemática aos governos ditatoriais de Cuba, Venezuela, Irã e, mais recentemente, de Mianmar; a insistência em trazer a Copa do Mundo e a Olimpíadas para o país, mesmo sabendo de seus custos e das perdas para o país; a brancaleônica investida na mediação do conflito israelense-palestino e as reiteradas críticas à direção da ONU; ações muitas vezes justificadas como necessárias para projetar o país e angariar apoio à candidatura a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, não passam, na verdade, de uma campanha pessoal do presidente para a Secretaria Geral da Organização das Nações Unidas ou, pasmem, à presidência do Banco Mundial. A Secretaria Geral é o posto preferido por Lula e pelo Politburo. Para o presidente é o de maior importância, possibilita intermináveis viagens, dispensa experiência, o trabalho é conversar e tem mandato de quatro anos com direito a reeleição. Para o Politburo representa a certeza, senão do respaldo, ao menos da defesa internacional para o seu projeto Brasil e a possibilidade de desatrelarse da mística criada em torno do presidente. Daí o mensageiro do amor e inoculador do vírus da paz com que pirotecnicamente se autoproclamou em Jerusalém e em Ramallah para pacificar o conflito entre judeus e palestinos que já dura 2.500 anos. O projeto, sutilmente traçado no início do 2º mandato, caminhou muito bem. Lula conseguiu com habilidade orbitar entre inimigos declarados e inconciliáveis como Bush, Fidel e Chaves, ser referenciado por Obama, receber títulos de jornais europeus e torna-se um jogador global, mesmo que em muitas ocasiões não ter ficado claro se os aplausos eram de reconhecimento, incentivo ou desdém. Contudo, as últimas atuações, além de ruborizar o país, podem ter comprometido toda a estratégia. O apoio incondicional ao aprendiz de tirano Chaves, as reiteradas demonstrações de descaso com os direitos humanos dos presos políticos cubanos, que comparou a bandidos, e da oposição iraniana, vítima do fundamentalismo implacável de Ahmadinejad, a defesa ao programa nuclear do Irã e as trapalhadas diplomáticas na recente viagem ao Oriente Médio, mais de desfazer a máscara de democrata, poderá representar a perda da credibilidade internacional, construída com a falsa argamassa de estadista. Assim, adeus cargo, o que, aliás, poderia ser muito bom para o Brasil, pois criatura e criador estariam, fatalmente, prontos para, como tem normalmente ocorrido nesse tipo de associação, se digladiar pelo poder, e Lula estaria apto, finalmente e de verdade, a fazer alguma coisa pelo país.

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