Sexta, 17 de Novembro de 2017

O plástico comestível

28 ABR 2010Por 19h:51

Em junho de 2008, a revista "Caros Amigos" em edição especial de meio ambiente (No.43), brindou os seus leitores com uma capa muito sugestiva: a repórter Gabriela Laurentiis experimentava um filme plástico de mandioca para embalar alimentos, e dizia: "É gostoso". O produto, desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (inspirados em projeto semelhante desenvolvido nos EUA), à base de mandioca e sacarose, é uma alternativa ao plástico convencional, pois além de embalar alimentos, é comestível e biodegradável! Na ocasião, a pergunta que perpassou pela cabeça de quem leu a reportagem da jornalista Cylene Dworzak, "Plástico de mandioca – bom para embalar, bom para comer", foi: "Quando será que esse produto chega ao supermercado, hein? ".

De acordo com Cynthia Ditchfield, que estava então à frente da pesquisa na USP (a ideia inicial foi da pesquisadora Priscila Veiga dos Santos, da Unicamp), ao contrário do plástico convencional, que advém do petróleo e dura cerca de 100 anos para se decompor na natureza, o da mandioca, por ser proveniente de uma fonte renovável e comestível, se degrada rapidamente em apenas alguns meses. Além disso, o Brasil é o segundo maior produtor de mandioca, atrás apenas da Nigéria. "É uma maneira de agregar valor a um produto nacional", diz ela. "A gente pensou em juntar as duas coisas, fazer uma embalagem que proteja e seja biodegradável, usando ingredientes naturais, comestíveis, e que não vai migrar nenhuma substância tóxica para o alimento". (Caros Amigos, Junho/2008).

Mais recentemente (23/01/2010), pesquisadores da Embrapa desenvolveram películas comestíveis que prometem conservar frescos e proteger os alimentos da ação de microorganismos por mais tempo. A tecnologia que ainda está em fase de testes e não chegou ao mercado é uma alternativa ecológica às embalagens de plástico sintético. De acordo com os pesquisadores, os filmes comestíveis ajudam a reduzir o volume de plástico descartado no ambiente, uma vez que ao invés de ir ao lixo a embalagem é comida sem gerar resíduo. Calcula-se que no Brasil a produção anual de filme plástico chegue a 210 mil toneladas (cienciahoje.uol.com.br/noticias/2010/01/embalagens-para-comer).

O curioso nessa história toda, é que o mesmo polímero que deu origem ao plástico – considerado hoje um dos principais vilões do meio ambiente nos grandes centros urbanos – foi recebido com entusiasmo ao ser descoberto pelo inglês Alexander Parkes, em 1862. É que ele viria substituir o marfim, usado então em larga escala na fabricação de bolas de bilhar, e como o marfim provinha de elefantes, temia-se pela extinção desses paquidermes! Ironicamente, hoje se busca justamente substituir o plástico sintético que se transformou numa praga pós-moderna! Essa necessidade e a preocupação de evitar que o planeta acabe virando um grande aterro sanitário, fazem com que pesquisadores de todo mundo procurem materiais biodegradáveis para substituí-lo. A China, por exemplo, se vê às voltas com nada menos que três bilhões de sacolas plásticas por dia! (Caros Amigos, junho/2008, Wikipédia,2010).

Enquanto o plástico comestível e biodegradável não chega ao consumidor, porém, o que fazer com as cerca de 12 bilhões de sacolas plásticas tradicionais que o Brasil utiliza por ano, conforme estimativa da Associação Brasileira de Supermercados (Abras)? Nesse sentido, em evento recente (15/03/2010), que contou com a presença do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a rede de supermercados Carrefour prometeu oficialmente interromper em quatro anos o uso de sacolas plásticas em suas lojas. Na mesma ocasião, Minc anunciou que, desde o início da campanha "Saco é um Saco", lançada pelo ministério em 5 de junho de 2009, Dia Mundial do Meio Ambiente, o brasileiro deixou de utilizar de 600 a 800 milhões de sacolas plásticas. Esse material, segundo o ministério, levaria cerca de "400 anos para se degradar"! E no dia 12/03/09, a rede de supermercados Wal-Mart lançou um programa de caixas preferenciais e descontos simbólicos ao consumidor que utilize sacolas retornáveis. (Folha Online,15/03/2010).

Nesse sentido, numa enquete realizada pela Folha Online em 10/03/2010, e que perguntou aos seus leitores: "O Carrefour vai banir sacolas plásticas e Washington (EUA) proibiu sua oferta gratuita, você as evita?" Em 3.956 votos computados, 8% disseram que pararam totalmente, 38% que as evitam, 29%, pretendem fazê-lo e 26% que não vão evitar. Ou seja, embora não possa ser considerada uma pesquisa formal, somados os que pretendem e os que não evitam as citadas sacolas no supermercado, 55% dos brasileiros parece que ainda não despertaram para a necessidade de reduzir o número de sacolas plásticas que leva pra casa todos os dias e que vão para os lixões, bueiros, rios e mares, entupindo, matando peixes e contaminando o meio ambiente! (Ver "Lixão se forma no meio do Oceano Pacífico", Globo.com, 15/02/09).

É bom que se diga, porém, que sem a implantação da coleta seletiva de lixo nas cidades brasileiras – incluída aí Campo Grande – fica difícil implementar quaisquer outras medidas que visem reduzir o número de sacolas plásticas utilizadas diariamente por sul-mato-grossenses ou brasileiros em geral. E enquanto o plástico comestível não chega aos supermercados, que tal aderir à campanha da "Fundação Verde" e trocar as sacolas plásticas por outras de algodão reutilizáveis? Não dá mais pra ignorar ou se esconder!

 

Hermano de Melo, Médico-Veterinário, escritor e acadêmico de jornalismo.

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