Segunda, 20 de Novembro de 2017

O livro de couro

21 MAI 2010Por 08h:31
Quando li o livro de Wilson Barbosa Martins “  MEMÓRIA Janela da História, publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, cuja presidência está a cargo do professor Hildebrando Campestrini, para mim, o mais completo e importante agente cultural no mapeamento da recuperação e registro da história de nosso Estado, ele me comoveu.

Tive a impressão de recuperar algo que havia perdido, neste campo onde julgava não haver mais prosa e segredo que valesse a pena.
Diante das folhas que apoiaram a sua mão Wilson selou sua vida com o que escreveu.
Folheando o livro, ouvi a voz distante dos Barbosa da Vacaria e como escreveu certa vez Nelly Martins, quando estes se instalaram em nossos sertões  “o lamento do urutau, o martelar do caburé, o aviso do curiango e o pio da coruja”.

Mallarmé tinha razão quando disse que a vida acontece para se converter em livro, de preferência, diria eu, num livro de couro, de capa dura e ressecada como essa relíquia de família que Wilson doou ao Instituto Histórico e Geográfico de MS.
A história advocatícia e pública de Wilson Barbosa Martins sempre esteve no fundo do meu olhar. Ele é sério e profundo, reconheço inclusive ser ele o homem público mais culto de nosso Estado. A leitura do livro dá a dimensão desta opinião.
Somos letras desse livro.
Na noite de seu lançamento que se deu no salão nobre do Rádio Clube Cidade, vi nos olhos e na voz firme de Wilson Barbosa Martins, a nossa profunda identidade perdida.

  Vi Wilson caminhar até a “Janela da História”, aspirar o ar fresco do amanhecer com olhar fixo num pé de baunilha que curiosamente tem cheiro de L’Heure Bleue, a enfeitar o pequeno jardim de sua residência ajudando-o a levar o encanto da vida e o desengano de viver após a partida de Nelly Martins. Porém, sem sentir solidão, pois, como me confessara certa feita durante uma cerimônia religiosa na Igreja São José, ele costuma superar a solidão através dos livros, da música e dos amigos, que nunca lhe faltaram, de sorte que, nada o detém, pois é juntando as forças que o menino  dos Campos da Vacaria vai além.

O passado estava presente naquela noite de lançamento do livro, ele surgia das profundezas de Wilson Barbosa Martins. Não sei se todos os presentes perceberam, mas eu senti naquela noite, durante o discurso de improviso de Wilson, silêncios que não eram amparados por nenhuma palavra ou sons, mas que me diziam fundo de Vespasiano Barbosa Martins, empunhando a bandeira do Estado de Maracaju, por 82 dias, na Revolução Constitucionalista de 32, até que chegou o dia em que Wilson Barbosa Martins, tornou-se o primeiro Governador eleito de Mato Grosso do Sul, antigo Estado de Maracaju.
Tocando fundo a minha alma a força de uma Senhorinha; o culto a amizade de Plínio que foi Rocha, quando sozinho foi para a televisão protestar duramente até as últimas consequências contra a cassação dos direitos políticos de Wilson Barbosa Martins; do Voto histórico de Plínio Barbosa Martins, no caso do Padre Jentel, que eternizou a imagem de um verdadeiro Juiz; a honestidade de Plínio Barbosa Martins, que desde  menino ouço falar que vendeu uma fazenda para pagar contas da Prefeitura; o caminhar franco de Bernardo Baís, quando rumava em direção a Igreja de Santo Antonio, para a qual ele doou o terreno e ofertou uma estátua do Santo Padroeiro da cidade, vinda da Itália em mármore carrara, quando foi colhido pela locomotiva em 19 de agosto de 1938; a tristeza do exílio de Vespasiano e sua família na cidade de Pero Juan Caballero, a fidelidade de Wilson Barbosa Martins, a Rua 15 de Novembro, assim como a Ordem dos Advogados de MS, da qual foi o Primeiro Presidente; do Cemitério da fazenda Passatempo onde estão enterrados seus antepassados, como o trisavô Ignácio Barbosa; as obras de Lydia Baís, sobretudo a Ceia de Leonardo da Vinci e de uma Santa montada a cavalo vestida de armadura e segurando uma lança, nas paredes da morada dos Baís que tanto me impressionam, além da arquitetura da mansão empoeirada de Gato Preto em Rio Brilhante, que desde o dia que vi nunca mais saiu do meu olhar.

Bastava a Wilson, a glória do berço, mais ele foi além, foi leal com seu destino sabendo estar à altura da história de seus antepassados, que se encontrava contada em parte num velho livro de couro.
Repetindo Jorge Luis Borges, eu diria que o tempo agora começa a pertencer a Wilson Barbosa Martins.
Que a Academia de Letras Sul-Mato-Grossense acenda suas luzes e inscreva em seu “Livro de Couro”, a sigla WBM, para formalizar o registro de quem já é imortal na alma de nosso povo.

Carlos Magno Couto, advogado

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