Quarta, 22 de Novembro de 2017

O jogador

14 JUL 2010Por 07h:48
Na hecatombe nacional que se abateu sobre o país depois do fracasso de nossa seleção, estamos nós, mais uma vez, a exercitarmos a busca pelo culpado  da grande tragédia. Nossas alegrias são socializadas. Nas conquistas nos esportes coletivos, elegemos sempre mais que um atleta como os “heróis” de nossas vitórias. Nas derrotas, preferimos um culpado solitário, ou no máximo dois. Felipe Melo, na cabeçada certeira para trás, que venceu o goleiro Júlio César em seu voo cego e solitário de encontro à esguia jabulani, que depois culminou com sua expulsão em um lance desnecessário, dividem a decepção do torcedor com o zangado comandante Dunga.
O circo da decepção começou a se armar aqui no Brasil, na divulgação da lista dos escolhidos para disputar a Copa do Mundo. Enquanto Dunga insistia no termo coerência para justificar a ausência de nomes, que eram unanimidades nacionais, ele também buscava na escravidão e na ditadura militar exemplos por ele não vividos, segundo suas palavras, para justificar que muitas coisas na vida só podem ser entendidas por quem as vive. Tentava explicar que a experiência vivida se sobrepõe ao aprendizado dos que se submetem a ouvir, dos que querem aprender, dos que estudam e dos que humildemente se aconselham. Havia muita contradição em seu discurso, pois ao mesmo tempo em que dizia ser capacitado porque já esteve “dentro” das quatro linhas de um campo de futebol, nunca havia treinado alguma equipe. Fora guindado ao cargo de técnico da Seleção Brasileira, sem escalas, para colocar ordem na casa após a bagunça de 2006.
Incorporou o espírito mais sórdido de um ditador e toda vez que se instalava no banco de reservas, se comportava como um jogador de futebol. Gesticulava, xingava os árbitros, esmurrava a cobertura do banco e como um cabeça de área varzeano, franzia a testa. Esquecia-se de que ele era o treinador daquela equipe. Esquecia de fazer as substituições nos momentos cruciais e no seu último jogo, mesmo com o time se arrastando em campo desprezou a terceira troca a que tinha direito. Comportava-se ainda como um jogador. Fora dele, trazia consigo a mágoa do fracasso da Copa do Mundo de 1990, quando foi o protagonista eleito para simbolizar aquele período que ficou conhecido como a Era Dunga. Por isso não perdia uma única oportunidade de cutucar a imprensa, balbuciando palavrões e provocando jornalistas.
Como necessitamos de culpados para as derrotas, em 1978 o eleito pelo nosso fracasso foi a Seleção da Argentina, onde o governo militar e ditatorial  argentino “comprou” os peruanos como forma de elevar a moral de um país inteiro. Saímos invictos da competição e campeões morais. Em 1982 foi o passe errado de Toninho Cerezo que enterrou o vistoso futebol arte diante da Itália. Na Copa de 1986, Zico perdeu um pênalti no decorrer do jogo e depois Sócrates, na disputa de pênaltis contra a França, perdeu o seu, chutando a bola sem tomar a “devida” distância. Em 1990, o culpado fora ele, Dunga, que batizou uma geração fracassada, tombamos diante da Argentina. Quando fomos campeões em 1994 (vejam só, “fomos” campeões), os nossos heróis foram o goleiro Taffarel pegador de pênaltis, a dupla Romário e Bebeto e até o recém-falecido Airton Senna foi reconhecido como o inspirador daquela equipe. Em 1998 o “piripapo” de Ronaldinho nos derrubou diante da França, outra vez. Na “nossa” conquista de 2002 prevaleceu a força do conjunto, a coesão da equipe e liderados por outro gaúcho (esse gremista) o Brasil vencia mais uma vez. Na Copa de 2006 a puxadinha do meião de Roberto Carlos foi o nosso bode (a França de novo!), e agora em 2010 o Dunga lidera a culpa seguido de perto por Felipe Mello.
Se a Seleção tivesse superado a Holanda e fosse a campeã, provavelmente uma parte considerável da imprensa iria enaltecer o espírito competitivo e aguerrido do treinador. Ele então seria reconhecido pela sua força disciplinadora, pela sua persistência e obstinação. Seria ovacionado por ter acreditado e lutado contra tudo e contra todos. O seu guru, um escritor motivacional dobraria a venda de seus livros e seus ideais de coerência seriam novos modelos nas faculdades de administração. Seu estilo de se vestir seria definitivamente fashion influenciando muitos cinquentões a colocar alguns badulaques por cima de roupas apertadas.
Uma parte do jogo, não mais que quarenta e alguns minutos foram suficientes para enterrar um novo perfil que ameaçava florescer. Tudo o que ameaçava se tornar como uma nova verdade naufragou junto com os dois gols holandeses. Mais uma vez a Holanda invadiu nosso país e dessa vez roubou nossos sonhos, ou melhor, nossas ilusões.
O difícil nisso tudo é entendermos, ou aceitarmos, que o futebol é apenas um jogo. Que perder ou ganhar uma Copa do Mundo, não nos fará um país melhor ou pior. Se fosse assim, o que seria da Finlândia, da Suíça e outros países? Mas também sabemos que, diante das derrotas consecutivas que sofremos em decorrência de nossas escolhas (políticas), às vezes, ou quase sempre, o futebol simboliza toda nossa vontade de sermos vencedores. Sentimos falta de quem nos orgulhar em outras áreas além do futebol e das artes. Por isso que valorizamos tanto o esporte. Por isso que nossas bandeiras do Brasil tremulam nos carros e nas ruas somente em momentos de Copa do Mundo. De certa forma, transmitimos a todas as nossas classes representativas nossos anseios de sermos um Brasil que “dá certo”.
Com Dunga não deu em 90 e agora em 2010. Em 1994, no tetra, ele era o capitão e ergueu a taça. Dunga continua jogador. Deu seus chutes de bico assistindo impávido ao naufrágio daqueles que deveriam ser seus comandados. Como no jogo se ganha e se perde, dessa vez ele perdeu. Felipe Melo também. Nós não. Nós nunca perdemos. O máximo que acontece conosco é o mesmo que aconteceu com o Ricardo Teixeira, fazemos péssimas escolhas.

Altemir Dalpiaz, Professor de Educação Física, Mestre em Educação– altemir@dalpiaznet.com.br

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