Sábado, 25 de Novembro de 2017

O indescritível Charlie Chaplin

5 JUN 2010Por 20h:38

No finzinho de 1959 os itabaianenses estavam eufóricos com a inauguração do Cine Ideal, cinema moderno, confortável, o melhor e mais concorrido da região agreste paraibana, fadado a receber, em seu palco, as maiores estrelas da música nordestina, como Luis Gonzaga, Marinê e sua gente, Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda... Às terças-feiras eram exibidos filmes de bang bang e aos domingos os clássicos e nacionais. A cidade nunca esteve tão alegre.

Nos primeiros dias de 1960 chegaram os filmes de Charlie Chaplim. O pátio do cinema, naquele domingo, apanhava grande multidão. Entrei na enorme fila para comprar o ingresso e quando dei por mim estava na frente do professor Almeida, diretor do Ginásio de Itabaiana, numa conversa que versava sobre a literatura francesa, com a professora de francês, senhora Selma Monteiro. Curioso, recuei o mais que pude para ouvi-los.

– Gosto muito da prosa francesa do século XVI – disse o estudioso diretor.

A docente ergueu os olhos para o movimento da bilheteria, coçou delicadamente os cílios com o polegar direito e, enquanto a fila andava, informou que dominaram a prosa francesa do sécu1o XVI dois dos mais originais e deleitosos pensadores de todas as literaturas, Rabelais e Montaigne. Diferentes de temperamento. Rabelais, jocoso e bom camarada; Montaigne, a ponderação que sorri de leve. Juntos criaram a prosa francesa. Exerceram grande influência sobre os ensaístas e satiristas ingleses. Seus escritos e a tradição a que deram origem floresceu em esplêndidos escritores franceses como os modernos Anatole France e Victor Hugo. Rabelais, com sua prosa, faz o leitor arrepiar-se com o seu humor trágico, nele não há rir alto e, quando menos se espera, é um gargalhador tremendo. Rebelais, que havia sido frade e depois médico, não tinha nenhum respeito por batinas, becas ou graus. Ele possui um vocabulário prodigioso, em parte por ele inventado, e empilhava imagens e analogias em massa. Já Montaigne comunga quietamente com a sua própria natureza e os livros. O "ensaio" é a única literatura cuja paternidade e data natalícia conhecemos com certeza. O "ensaio" tem pai e certidão de nascimento. Quando em março de 1571 Montaigne se retirou duma sociedade rumorosa para a torre do seu castelo a fim de conversar consigo mesmo, o "ensaio" estava a gestar-se. E Montaigne, o primeiro ensaísta, manteve-se o maior de todos. A primeira edição dos ENSAIOS, de sua lavra, data do ano de 1580. O ensaísta supremo, o verdadeiro pai, está admitido que seja aquele homem que se encerrava na torre para conversar consigo mesmo.

Chegamos à bilheteria e a aula de literatura francesa morreu ali. Corremos todos para um encontro inesquecível, na tela do cinema, com o fantástico Charlie Chaplim. Cinema mudo, não nos incomodou, os movimentos e a gesticulação do fabuloso ator falavam claramente o sentido real das cenas.

Charlie Chaplin nos contou os desígnios do transparente CARLITOS, a vida do vagabundo CARLITOS, estado a que chegou, na Terra, um anjo caído ao Céu. Um conto sem palavras.

Carlitos. Inocente. Triste. Fazia rir com a sua inocência e sua tristeza. Carregava as coisas mais belas do mundo. Poesia. Lembro-me dos olhos dele e do sorriso que nunca pode sorrir. Corpo de Carlitos era um bailado de folhas mortas. Música. Lembro-me dos passos, dos gestos dele. Sim, um anjo no exílio. Disfarçado nas calças sem fim, no fraque cada vez mais roído, em cima dos sapatos enormes, o coco dançando na cabeça, a bengalinha entre os dedos. Não tinha idade. Sempre igual. Orfeo sem lira, Hamlet na rua, Dom Quixote a pé. Orfeo, Hamlet, Dom Quixote, mais ou menos sozinhos, falaram. Carlitos não falou.

Carlitos, pobre dos pobres, imigrante, pastor de almas, vidraceiro, artista de circo. Sofreu em busca de ouro, sofreu na guerra, sofreu na cadeia. Barbeiro tímido do Gueto, o confundiram com o mais arrogante dos ditadores. Doce irmão das estrelas e das esquinas. Um espantalho. Mas em Carlitos os pássaros vinham pousar, cantando. Tão puro! Tão amoroso! Tão repelido! Não sabia distinguir o bem e o mal. Tudo para Carlitos era o mesmo espanto encantado, a mesma ternura esparsa nas coisas e nos seres.

O indescritível Charlie Chaplin, vivenciando CARLITOS, é simplesmente inesquecível.

 

Reginaldo Alves de Araújo

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