Sexta, 24 de Novembro de 2017

Falando de arquitetura e urbanismo

O Haiti não é aqui...

29 JAN 2010Por CAIO NOGUEIRA01h:34
O terremoto do Haiti e suas consequências têm consternado o mundo, que assiste perplexo as perdas humanas e a destruição das cidades, casas, economia, infraestrutura, etc. Mas passada esta fase de profundo pesar, é preciso reconstruir o país e traçar as bases dessa reconstrução. Ao longo da história, muitas cidades ruíram e souberam se reerguer de hecatombes naturais ou provocadas pela ação humana. Dentre as que mais sofreram os efeitos devastadores da II Guerra Mundial, Londres, Stalingrado (atual Volgogrado), Dresden, Hiroshima e Nagasaki são exemplos do despropósito do conflito, mas também do poder de reconstrução dos povos atingidos. Bagdá ainda não se recompôs das trapalhadas da família Bush, mas a paz um dia reinará e há de trazer de volta seus dias de esplendor. Podemos colocar ainda na conta das idiossincrasias dos governantes o incêndio ordenado por Nero em Roma, no ano 64 da era cristã, sobre cujas cinzas implantaram-se um novo plano urbanístico e a Domus Áurea, palácio do imperador, onde trinta anos depois se ergueu o Coliseu. Duas grandes catástrofes naturais marcaram mudanças importantes nos rumos da Arquitetura e do Urbanismo: o terremoto de Lisboa, em 1755, e o incêndio de Chicago, em 1871 – ocorreram em momentos- chave da modernização de Portugal e dos Estados Unidos. Os tremores em Lisboa foram acompanhados por incêndios e ondas gigantescas que varreram a zona portuária, causando mais de 10 mil mortes. A reconstrução da cidade é uma metáfora das reformas promovidas pelo Marquês de Pombal, primeiro ministro de D. José I, no plano político, educacional e das relações do Estado com a Igreja. Para ele, após os seguidos abalos, era importante “enterrar os mortos e socorrer os vivos”, e “policiar ruas e edifícios mais importantes para evitar roubos”. A cidade foi reconstruída a partir do projeto do arquiteto Eugênio dos Santos e dos engenheiros Manuel da Maia e Carlos Mardel. O traçado é de inspiração neoclássica, com quadras reticuladas e largas avenidas que convergem para a praça que hoje tem o nome do Marquês, de onde parte o eixo formado pela Avenida da Liberdade, que conduz ao porto e à Praça do Comércio. Os edifícios passaram a obedecer a regras construtivas que visavam à maior segurança contra novos sismos e à unidade estética, obtida pela repetição da volumetria e dos elementos de fachada. A arquitetura do século XVIII se caracteriza por reunir valores clássicos que dominaram a Europa após as descobertas das escavações de Pompeia e Herculano, a partir de 1738. Ao mesmo tempo, o modelo neoclássico adequava-se a cidades que passaram a abrigar a atividade manufatureira, os bens e a riqueza agregada pela exploração colonial e uma nova mentalidade científica, que a filosofia denomina “Iluminismo”. Reza a lenda que, perguntado sobre a razão de ruas tão largas, que contrastavam com o antigo traçado medieval da cidade, Pombal confirmou a fama de déspota esclarecido ao predizer: “um dia hão de achálas estreitas”. Ao fim do século XIX, Chicago era um importante centro de produção agrícola e industrial, e entroncamento entre as principais hidrovias e ferrovias norte-americanas. A efervescência econômica e demográfica da cidade gerou um sistema construtivo denominado “baloon frame”, que dava rapidez à execução de casas em painéis de madeira. O incêndio iniciado em um estábulo espalhou-se pela cidade deixando um terço de seus moradores desabrigados. A reconstrução se deu sob um novo ordenamento urbano e a substituição da madeira pelo aço, mantendo-se o processo de execução de painéis para construção em série. Além disso, acrescentam-se outras tecnologias: a eletricidade como força motriz, o elevador, o telefone, enfim, foram dadas as condições para o nascimento do arranhacéu: símbolo da cidade moderna, da especulação imobiliária e da supremacia americana. A catástrofe do Haiti reúne o que de pior o homem e as condições naturais podem causar. O país, que já foi a mais próspera colônia latino-americana, tornou- se um pedaço miserável de terra cercado por mares de horror e iniquidade. Quando parecia que a cobiça internacional e a ambição dos líderes internos haviam concluído sua obra de degradação, eis que a natureza resolve mostrar sua força destrutiva. Já são mais de 175 mil os mortos pelo terremoto que assolou o país. Os que sobrevivem vagueiam errantes, saqueiam ou lutam entre si sobre os escombros da capital. O esforço da comunidade internacional para a reconstrução do Haiti não pode repetir os erros da trajetória política do país. É preciso ouvir a população, fortalecer o que resta de suas instituições e empregar os recursos econômicos e tecnológicos de que a humanidade dispõe. Ao mesmo tempo, os novos assentamentos requerem um novo urbanismo, uma nova arquitetura e técnicas construtivas mais adequadas às condições impostas pela natureza e ao convívio solidário entre os homens. Se isso ocorrer, o significado da reconstrução transcenderá os efeitos da modernização, como vimos em Lisboa e Chicago, e poderá se repetir em outras regiões do terceiro mundo. Em 1993 Caetano e Gil fizeram um disco antológico: Tropicália II é o retorno dos dois baianos ao que fazem de melhor: misturar referências musicais, poéticas e culturais, e deixar que dessa sopa de letras e canções se extraia uma visão de mundo ou, pelo menos, uma visão baiana de mundo... A canção que se destaca, entre ótimos baiões, sambas e blues, é Haiti, uma espécie de rap em que Caetano nos convida a pensar naquele país, em clara analogia com as condições da população pobre e negra no Brasil. Mas a vida imita a arte e nas tragédias parece superála. Os recentes abalos em Porto Príncipe e em outras regiões da ilha vêm mostrar que, se de um lado, o Havaí não é aqui, como o paraíso que Caetano desejava ao menino do Rio, também nunca tivemos entre nós situação sequer parecida com o inferno que hoje ocorre no Haiti. Lá, o buraco é bem mais embaixo.

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