Quinta, 23 de Novembro de 2017

“O Golpista do ano” em livro

3 JUL 2010Por 00h:31
Felipe Branco Cruz, AE

Escapar da cadeia uma vez não parece ser impossível, apesar de o fato já ser notável para qualquer um.  Agora, escapar quatro vezes, e sempre numa sexta-feira 13, aí, sim, parece inacreditável. Mas foi exatamente isso que o americano Steven Russel fez. Em todas as entrevistas que deu, sua justificativa para fugir da cadeia foi sempre a mesma: ele fez isso para visitar seu grande amor, Phillip Morris. E foi justamente por isso que ele acabou sendo recapturado em todas elas. Detalhe: Phillip Morris nasceu numa sexta-feira 13.
É claro que uma vida como essa tem todos os elementos para virar um livro e, consequentemente, um filme, como, de fato, acabou acontecendo. O longa “O golpista do ano” está em cartaz nos cinemas, com os astros Jim Carrey e Ewan McGregor no elenco e uma boa participação de Rodrigo Santoro. Agora, é a vez da editora Planeta relançar no Brasil, na esteira do sucesso do filme, a obra na qual o longa foi baseado, “Eu te amo, Phillip Morris”, do jornalista americano Steve McVicker, publicada originalmente nos Estados Unidos em 2003. Aqui, a nova tiragem sai com título e capa iguais aos do filme (a R$ 30, em média).
Neste caso, no entanto, a adaptação para o cinema é um caso raro em que a história fica muito melhor na telona do que no livro. Apesar da obra impressa apresentar mais detalhes e dar espaço maior para Jimmy Kemple, primeiro namorado de Steven Russel e que morreu de Aids (interpretado no filme por Santoro), o longa é mais engraçado, dinâmico e claro.
O livro é confuso, mal apurado, escrito de forma não linear e não é rigoroso em relação às datas nas quais os fatos ocorreram. Num momento, por exemplo, Russel está chorando a morte de Kemple. Na linha seguinte, já está viajando pelo país ao lado de Morris. No papel, alguns fatos são narrados de forma tão rápida e vaga que o leitor fica com a impressão de ter pulado alguma página por engano. Há, ainda, diversos vácuos temporais no livro de 251 páginas.
Enquanto no longa as cenas são solares e engraçadas, no livro são poucas as informações, mostrando um Steven Russel mais centrado, calculista e menos apaixonado. Ou seja, o roteiro mudou a personalidade de Russel para deixá-lo mais divertido e comercial. Até porque o livro chega a ser tedioso em alguns pontos.
Um dos méritos da obra literária é mostrar que Russel não foi para o mundo do crime apenas por ter se descoberto homossexual. No filme, a impressão que temos é a de que ele resolveu ser criminoso simplesmente para sustentar o alto custo de vida que um gay tem – segundo o personagem central do longa. Na realidade, Russel teve diversos problemas familiares e já tinha tido experiências homossexuais desde os 15 anos. Ele sofria de depressão e, quando criança, passou a frequentar hospitais psiquiátricos após seus pais revelarem que ele era adotado. De fato, a vida de crime só começou após ele ter assumido publicamente que era homossexual, mas o motivo de ele se transformar em criminoso não foi esse.
Boa parte do livro é baseada apenas nas entrevistas que o autor McVicker fez com Russel na prisão. No começo da obra, o próprio autor tenta se justificar, escrevendo que “não é fácil checar as informações de um vigarista”, mas que, na medida do possível, ele tentou confirmar todas elas. Em alguns casos, McVicker simplesmente não sabe se o que Russel diz é verdade ou mentira.
Uma coisa é certa: Steven Russel de fato fugiu quatro vezes da cadeia e, numa delas, simulou a própria morte após ficar vários dias sem comer e enganar as autoridades, dizendo que era paciente terminal de Aids. Em todas elas, o motivo da fuga e de sua captura foi o amor. Esse, sim, um amor verdadeiro, que dura até hoje por Phillip Morris. Atualmente, Russel cumpre prisão perpétua, condenado após fugir tantas vezes da cadeia. Morris está livre, depois de ter cumprido sua pena, sem nunca ter escapado da prisão.

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