Terça, 21 de Novembro de 2017

Artigo

O fim do mundo é aqui

19 MAR 2010Por Caio Nogueira04h:08
A ideia de fim do mundo aterroriza a humanidade desde que o mundo é idem. Na antiguidade, durante o Dilúvio relatado na Bíblia, se não fosse a convocação de Noé, não só a vaca, mas leões, girafas, porcos, homens e outros bichos, iríamos todos pro brejo... Cinco mil anos depois, na Alta Idade Média, a leitura do Apocalipse de São João, e as pragas e guerras que fizeram desaparecer os últimos resquícios da civilização romana enchiam de mau agouro a expectativa do ano mil. O fim do mundo poderia ter chegado também com a peste negra do século XIV ou, pelas previsões de Nostradamus, na virada do ano dois mil. Se, até então, a tese do fim do mundo era uma possibilidade aventada apenas por profetas e religiosos e aceita pela massa de supersticiosos do planeta, hoje, são os ambientalistas quem nos assustam com seus augúrios. Terremotos, tsunamis, aquecimento global, nevascas e chuvaradas, que antes eram causados por Júpiter, Tupã ou São Pedro, passaram a ser colocados na conta do motorista, do fumante, do sujeito que abre a geladeira, do que usa saco plástico, garrafa pet, enfim, passaram a ser debitados na minha, na sua, na nossa cota de carbono... As catástrofes recorrentes na cidade são debitadas à ação predadora desse ser desnaturado, que se abriga em concreto, respira energia e circula sobre o asfalto, acelerando o fim do mundo. O último temporal em Campo Grande fez emergir, além de destruição e prejuízo, o predomínio esmagador do senso comum sobre o conhecimento científico. Parece haver um consenso rodrigueano (para Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra) de que construções e asfalto são responsáveis pelas maiores calamidades ao reduzirem a área permeável do solo. Embora haja verdade nesta sentença, não há como aceitá-la como axioma. Depois de 49 dias ininterruptos de chuva, é de se prever que o solo esteja tão saturado que não seja capaz de absorver sequer uma lágrima. Situação semelhante ocorreu no verão de 1981, quando o repórter Pio Lopes transmitiu daqui para o Jornal Nacional cenas da enchente no Cachoeirinha, exatamente no mesmo lugar em que hoje assistimos à cheia do Prosa. Não havia ali nenhuma obra, nenhum edifício, nenhum metro quadrado de asfalto. Naquela época, o mundo acabava na Rua Ceará, depois dela só capim e nem assim o solo da fazenda de Oswaldo Arantes absorveu as águas daquela torrente, que incomodava as vacas pastantes. Como prenúncio do fim do mundo, movimentam- se o ministério público, a imprensa e alguns apressados em busca de culpados e medidas do Poder Público. O problema é que a ciência passa longe das propostas: sem informações pluviométricas, teste de percolação ou sondagem do solo, houve até quem confundisse em entrevista metro linear com metro quadrado, enganando-se também sobre a aplicação da taxa de permeabilidade do solo. Essa taxa, que diz respeito à área do terreno que deve manter-se permeável, isto é, sem cobertura ou revestimento de piso, é calculada sobre a área do terreno. Segundo a entrevistada, a base do cálculo seria a área construída. Isto quer dizer que construções verticais ficarão devendo área ao Poder Público para cumprir a cota. É uma tarefa inglória legislar sem informação, e há de se convir que o Legislativo pode muito, mas jamais poderá legislar sobre as leis da gravidade, dos vasos comunicantes ou da capilaridade do solo... Cidades são obras humanas. Nelas historicamente o homem faz abrigo, celebração e convívio, transformando a natureza e reciclando aquilo que construiu por seguidas gerações e, em muitos casos, per saecula saeculorum. A gênese das grandes metrópoles modernas é a cidade nascida com a revolução industrial do fim do século XVIII na Inglaterra. É ali que se concentrou a população urbana de modo até então nunca visto, como uma colmeia fervilhante em meio à insalubridade, à marginalização e ao caos. A cidade paleotécnica era movida a carvão e ferro. A degradação do espaço urbano, dos rios e da qualidade do ar mostrou a necessidade da criação de leis e posturas de defesa do meio ambiente e dos direitos sociais. Há, entretanto, desde então, uma contínua desconfiança quanto à ação do homem sobre o meio ambiente, que se reflete em uma certa ideologia preservacionista que, ao mesmo tempo em que busca a proteção e a conservação do ambiente, é estagnadora não apenas do progresso, mas até das relações sociais mais comezinhas, atraindo a atenção de gente de todo tipo de intenção e interesse. A história da civilização é marcada pelo esforço humano em afastar-se de sua condição animal. É intrínseco a esse afastamento o domínio da natureza, de suas ameaças e recursos. A medida exata deste domínio, para que ele seja duradouro e fértil é o conhecimento e a aplicação das leis da própria natureza, isto é, do conhecimento científico. Se o futuro da humanidade já foi objeto da predição dos profetas e em dados momentos parece ser prognosticado por amadores, é desejável que a ciência seja enfim chamada ao palco das decisões sobre o homem, a cidade e o planeta. Estamos ainda muito distantes do fim do mundo. Entretanto, em alguns momentos, parecemos estar muito próximos do fim da picada.

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