Sexta, 24 de Novembro de 2017

O desajuste social por Kennedy e Babenco

15 AGO 2010Por 06h:55
Antonio Gonçalves Filho, AE

Parece clara a razão de o escritor norte-americano William Kennedy, de 82 anos, ter escolhido o cineasta Hector Babenco, de 64, para assinar a adaptação cinematográfica de seu livro “Ironweed”,  ambos foram formados lendo os existencialistas franceses e os americanos da Geração Perdida. Sobre eles, Kennedy e Babenco, a convite do Estado, tiveram uma longa conversa na casa ocupada pela editora Cosac Naify durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), encerrada semana passada.
Kennedy e Babenco têm muito em comum além das preferências literárias pelos livros de Albert Camus (1913-1960) e Saul Bellow (1915-2005), de quem o primeiro foi grande amigo desde que vivia em Porto Rico e lá encontrou seu mestre, que o incentivou a escrever. Kennedy também tem muito a ver com Hunter S. Thompson (1937-2005), criador do jornalismo gonzo, que cruzou a fronteira entre ficção e realidade ao abolir a distinção entre sujeito e objeto de sua pesquisa. O chamado Ciclo de Albany, ao qual pertence “Ironweed”, série de sete romances que está sendo publicada pela Cosac Naify, trata de uma família problemática da cidade natal de Kennedy. O romance representou para seu autor uma oportunidade de rever o próprio passado por meio da saga de seu personagem Francis Phelan. Seu protagonista é um andarilho dependente de álcool que um dia volta para o velório da mãe e acaba na cadeia, sendo solto por seu filho, que abandonou há 22 anos, ao deixar cair o bebê do berço em estado de embriaguez.
A exemplo de Francis, Kennedy, com a morte do pai, também voltou para a Albany que detestava após ter vivido fora dos EUA, mas, longe de renegar seu provincianismo, tentou entender como viviam seus habitantes. Empregou-se como jornalista do Times Union e assinou uma série de reportagens investigativas sobre os desocupados de sua cidade, material que lhe serviu para escrever “Ironweed”. Babenco identificou-se imediatamente com o livro, pois teve igualmente experiências dramáticas como deslocado social antes de se tornar um diretor internacionalmente conhecido e premiado.
“O beijo da mulher aranha” (1985), foi esse filme que fez Kennedy acionar seu agente literário e dar o sinal verde para Babenco, que logo conseguiu a adesão do ator Jack Nicholson. “Ele considera esse o seu melhor papel no cinema”, garantiu o escritor, que escolheu Babenco por sentir firmeza e delicadeza no tratamento de “O beijo da mulher aranha”, história criada pelo argentino Manuel Puig (1932-1990) sobre um guerrilheiro seduzido por um homossexual na prisão. Essa é outra característica que aproxima os dois: tratam de personagens socialmente desajustados com um olhar que rejeita o julgamento moral da sociedade. Ambos se recusam a aceitar que se tratam de outsiders. Defendem que eles não foram expulsos dessa sociedade, mas pularam fora dela por não concordar com suas regras de conduta. Seriam, em suma, autoexilados. E são os preferidos tanto de Kennedy como de Babenco, pois espelham justamente a crise de uma sociedade que recusa reconhecer a força moral de personagens como Francis Phelan ou Molina, o gay contador de história de “O beijo da mulher aranha”, que abdicaram de um lugar social em busca da afirmação de suas identidades.
“Você tem de viver à margem do mundo se o quiser mudar”, observa Kennedy, recordando Bellow e citando Phelan como exemplo de um personagem obrigado a se reinventar o tempo todo, “alguém, enfim, destinado a usar sua experiência existencial para se transformar”, conclui, referindo-se ao mais conhecido livro do amigo Saul Bellow, “As aventuras de Augie March” (1953). “Ele escolhe ser um vagabundo, não foi compelido pela miséria, o que me fascinou desde o início em ‘Ironweed’”, diz Babenco a respeito do personagem de Kennedy. “Não há melodrama nele, mas até uma certa ironia”.
Talvez por isso a primeira obra literária a provocar Babenco na juventude tenha sido Nadja, do surrealista francês André Breton (1896-1966), romance publicado em 1928 sobre um narrador que inventa uma mulher para perseguir pelas ruas de Paris. A personagem deslocada assume dimensão real no delírio de seu criador e acaba internada num hospício.  “Sempre admirei mais a prostituta do que a pessoa que ganha dinheiro decentemente”, resume Babenco, justificando a razão de os personagens de seus filmes estão sempre à margem, como os de Kennedy. “O importante é dar voz a quem não é considerado pela sociedade”, conclui.

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