Quarta, 22 de Novembro de 2017

Nossa “saúde doente”

12 MAI 2010Por 00h:04
A área da saúde no Brasil tem sido motivo de sucessivos ataques e dados negativos. Sou médico há 48 anos. Iniciei minha vida profissional no final de uma época em que o médico era figura valorizada e respeitada na sociedade pelo trabalho que realizava e a forma como o fazia.

Lembro-me de quando surgiram as primeiras interferências estatais na área médica, com o final dos IAPs, quando a medicina era de responsabilidade dos diversos grupos sociais, Eu dizia para meus colegas... Isso vai acabar com o médico e a medicina no Brasil! E o que temos hoje? Um profissional desprestigiado e que se desprestigia, sem meios adequados para o trabalho, precisando sobreviver. Desprestigiado porque a profissão foi desqualificada pelo poder público, submissa às ingerências dos seguros que cerceiam o trabalho médico. A formação médica deixa muito a desejar. Existem faculdades de medicina sem a mínima condição de dar uma boa formação (técnica e moral) que têm autorização para funcionar e, para completar, estamos assistindo a complacência com formados fora do Brasil, em lugares bem piores do que aqui. Vimos pelo novo código de Ética Médica a intenção  do CFM e dos CRMs de dar maior responsabilidade ao profissional médico. Vamos esperar a contrapartida das instâncias superiores do País.

Nas diversas áreas de atividade da sociedade os profissionais para se desempenharem no trabalho precisam gostar do que fazem e com seu trabalho sentirem paz para viver, principalmente no que diz  mais diretamente ao ser humano (saúde, educação e segurança física e social). Mas por aqui, esses temas servem de motivação para as campanhas políticas de hoje e de sempre. E, já começou!
O médico de hoje sofre as influencias externas (como citei acima) e internas à medicina. Não é mais um profissional autônomo e nem o paciente uma individualidade. Existem regras que exigem uma atuação direcionada como a hoje tão decantada medicina das evidencias, fruto das pesquisas  que apontam  a conduta estatisticamente  mais adequada , colocando o médico numa situação que parece dispensá-lo de pensar,  levando-o a aplicar o paciente ao protocolo médico. É a mesma situação do juiz que decide pela lei de forma fundamentalista, esquecendo que a lei existe para o homem e não o homem para a lei, sendo que cada caso é um caso.

Somando-se a essa situação, a evolução dos meios auxiliares de diagnóstico, o número maior de pacientes a serem atendidos, fizeram com que esses meios auxiliares passassem  a se designar de “meios de  diagnósticos” como se o médico fosse dispensado de fazê-lo . Nessa situação, o médico se vê obrigado a solicitar exames para que o paciente se sinta satisfeito com o atendimento e ele “justificado” diante do paciente. Como dizem... Um finge que é atendido e outro finge que atende.  O seguro e o País pagam a conta. A  medicina se torna muito cara e, proporcionalmente, menos eficiente.
No Brasil não há falta de médicos. A OMS diz que um país necessita de um médico para cada mil habitantes. Temos um para cada setecentos, senão mais. Acontece que não formamos médicos  preparados para nossa realidade, fazendo com que se concentrem nos grandes centros.

Citei o número maior de pacientes a serem atendidos.  Isso acontece por vários motivos, além do aumento populacional. Problema de saúde pública. Falta de saneamento básico adequado; doenças tropicais  endêmicas e epidêmicas; a cegueira da ignorância; o paternalismo político que leva ao ócio e ao vício.
Explico  meu ponto de vista sobre os dois últimos motivos. A cegueira da ignorância faz com que as pessoas não tenham discernimento, interpretando os fatos emocionalmente,  abrindo as portas para as doenças psicossomáticas. Se for feito um levantamento dos atendidos nos postos de saúde, certamente esse número será muito grande. As pessoas instruídas têm  maior abertura para a vida participativa, saindo de si, pensando menos em doenças, preocupando-se mais com o entorno, se bem que, a internet e a mídia se encarregam de poluir a cabeça, também, dos mais esclarecidos.
O paternalismo político joga o ser humano no esquecimento, pois  ele passa a ser um instrumento da politicagem e se compraz na ociosidade sem perceber que essa destrói  o seu corpo e a sua personalidade, fazendo-o sentir-se uma vítima da sociedade, sem responsabilidade com a mesma. Os programas sociais não podem ser paternalistas. Política decente deve atender às necessidades sociais, mas exige e cobra, de fato, a participação do cidadão e não constrói curral eleitoral.

Preocupar-se com a saúde não se restringe a prestar assistência médica direta, mas, principalmente, indireta  dando ao ser humano condições de uma vida digna (trabalho digno, segurança física e social para viver). A isso chamamos de desenvolvimento.

Fernando Vasconcellos Dias. Médico, Membro da Academia de Medicina de Mato Grosso do Sul.
E-Mail augusto.vasconcellos@uol . com. br

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