Assaltaram três vezes a casa de Rosilene, que mora ali há sete anos: na primeira levaram um ventilador, um liquidificador e brinquedos; na segunda, um porta CD e um aparelho DVD; e na terceira vez, a bicicleta do marido Luiz Antonio, que havia pago a última prestação no dia seis, ficando sem o veículo no dia oito, 48 horas depois. "Eu sei que eles moram perto; a gente se esforça tanto para conseguir ter alguma coisa em casa e de repente esses larápios aparecem, levando tudo", lamenta.
Até agora o asfaltamento da rua por onde circulam os ônibus foi o único grande presente da prefeitura para os moradores desse bairro próximo às Moreninhas, onde o caminhão da limpeza pública vai deixando para trás todo lixo não acondicionado em recipientes próprios, principalmente entulhos de construção. A coleta é feita às segundas, quartas e sextas-feiras.
Água encanada tem, porém o esgoto ainda corre a céu aberto, pedras pontiagudas cobrem o chão batido, e ladrões furtam casas humildes para trocar objetos de valor por drogas. "Nem precisamos ter asfalto, essa rua aí (Antonio Moreno) está rebaixada, mas um calçamento bem cuidado uma vez por ano já serve", contenta-se o horticultor Durvalino. "O duro é esperar providências; demoram muito para nos atender", queixa-se. Desde 1988 ele mora numa casa em frente à horta, com a qual abastece estabelecimentos comerciais nas vilas Moreninhas. "As primeiras couves passaram de um metro de altura", alegra-se, mostrando a irrigação por gotejamento.
O lixo acumulado na beira do mato às vezes dá origem a monturos queimados. "Não é preguiça, é porque não tem pra onde levar", explica Herculano de Paula, 34. Esse lugar do bairro é quase um território de ninguém, daí a sujeira. "Tem dono sim", corrige Rosilene Cardoso. Ela ouviu diversas vezes outras pessoas comentarem tratar-
se de um espólio ainda não solucionado pelos herdeiros. "Enquanto isso, a gente tem coragem de atravessar para a vila (Brasil) de dia, mas de noite, de jeito e maneira!", alerta a moradora. Para Rosilene, são os donos, e não a prefeitura quem deve limpar esse terreno abandonado, medindo cerca de quatrocentos metros de extensão.
Isso é uma rua ou um esgoto? "Os dois", brinca Taimara de Souza Rodrigues, 19. Diariamente ela caminha a pé pela tortuosa Rua Argirita, cujo nome faz lembrar uma pequena cidade de Minas Gerais. Amigos dela atravessam a imundície de bicicleta, devagarinho, para não estourar os pneus ou quebrar os raios nas pedras. Contrastando com a sujeira arrastada pelo esgoto corrente surgem flores amarelas entre os arbustos espalhados nos dois lados dessa rua. No muro de uma casa um cartaz oferece números de contato telefônico para interessados em participar de romarias para os santuários de Aparecida do Norte (SP) e do Divino Pai Eterno de Trindade (GO).
Foto: Divulgação Policia Civil

