Terça, 21 de Novembro de 2017

Museu revive trajetória de Lídia Baís

24 MAI 2010Por 06h:44
Sílvio Andrade, Corumbá

Manto marron, lembrando os capuchinhos, boina, lenço e um grande crucifixo de corda. Aquela senhora de estatura mediana, curvada e de mau humor, adentra o Museu de História do Pantanal (Muhpan)  para surpresa de quem visita o local, no porto geral de Corumbá. Ranzinza e falando em tom autoritário, ela logo rouba a cena, lamentando porque a tiraram de casa.

“Quem é essa senhora?”, pergunta alguém. “É a Lídia Baís, vocês não ouviram falar?”, indaga o coordenador do Muhpan, Juliano Borges. “Vamos conhecê-la?”. O convite é feito a um grupo de estudantes e turistas. Todos  reúnem-se em volta daquela figura intrigante, a falar com a propriedade de quem tem afinidade com o lugar, o centenário prédio Wanderley & Baís.

Tratava-se de uma intervenção cênica, na qual a atriz corumbaense Bianca Machado interpretava a polêmica artista plástica sul-mato-grossense, cujo pai, o italiano Bernardo Franco Baís, foi o dono do casarão mais imponente da Rua Manoel Cavassa, que agora abriga o Muhpan. A ação fez parte da programação da 8ª Semana Nacional de Museus, encerrada ontem.

A iniciativa é um resgate histórico da ligação de Lídia Baís com o prédio, herdado do pai e vendido à Prefeitura Municipal de Corumbá antes de morrer, em 1985, aos 84 anos, sozinha, em Campo Grande. O Wanderley & Baís, que sediou o maior armazém do porto e abrigou a 14ª agência do Banco do Brasil, foi o primeiro prédio restaurado do Casario do Porto.

Incorporando a artista plástica, Bianca Machado fez uma apresentação até didática, ao interagir com o público e questioná-lo sobre seu pai, que naquele grupo ninguém ouviu falar. “Como não sabem? Ele foi o dono disso aqui, foi ele quem trouxe o progresso, a ferrovia”, provocou, andando de um lado a outro. “Mas quem ficou na história fui eu.”

Visitas animadas
Os visitantes do Muhpan foram surpreendidos pelo ato, que durou cerca de dez minutos. “Foi uma coisa diferente, não esperava que tivesse uma encenação em um museu”, disse a estudante Andreyle Heleno Silva, 14, carioca, filha de militares, nova moradora da vizinha cidade de Ladário. “Voltarei outras vezes, gostei do museu e do centro histórico.”

A “presença” de Lídia ao Muhpan faz parte de um evento iniciado em 2009, o Visitas Animadas, no qual atores locais dão vida a personagens importantes da história regional. No ano passado, os atores Salim Hagzan e Dílson de Souza interpretaram um vendedor de bilhete da antiga ferrovia Noroeste do Brasil e o explorador e fotógrafo Guido Boggiani, pelo circuito expositivo.

Para Bianca Machado, 46, o convite do Muhpan foi um reconhecimento a seu trabalho, além do prazer de interpretar uma das mais importantes figuras femininas das artes sul-mato-grossenses. Ela criou em 2006 a peça “Amor sacro profano”, um monólogo que conta a conturbada trajetória de Lídia Baís, entre a mocidade e a velhice. “A Lídia é uma incógnita”, diz.

Cinema infantil
A programação do Muhpan na Semana Nacional de Museus incluiu outras atividades, como as visitas orientadas, com duração de uma hora. Também foram realizadas visitas noturnas para os alunos da Eja (Educação de Jovens e Adultos) e a mostra de cinema infantil, com as melhores produções nacionais, curta e longa-metragem, desta década.

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