Sexta, 24 de Novembro de 2017

Meu pai herói!

8 AGO 2010Por 05h:37
SCHEILA CANTO

Há algum tempo, os pais (re)descobriram o mundo dos afetos e não abdicam de um relacionamento mais íntimo com os seus filhos. A imagem de autoridade, que atuava apenas para pôr ordem na casa e garantir o sustento da família, deu lugar a um pai mais ativo que vive de forma empenhada a relação com os filhos, tornando o relacionamento familiar mais saudável.
Não é redundante dizer que os pais são capazes de qualquer coisa pela vida e felicidade do filho. Em uma situação de perigo ganham força sobrenatural, aguçada pelo instinto de proteção e arriscam a si mesmo para salvar o herdeiro. E a história está cheia de fatos que comprovam isso. Você que é pai, nunca pressentiu perigo rondando sua prole? Nunca foi alfinetado por um sentimento que o sufocou, trazendo-lhe à mente, de imediato, a imagem do filho que estava em perigo? Se ainda não passou por essa situação, agradeça, pois a sensação é surreal, indescritível, de um amargo que oscula a alma.
Se todo pai é um herói – com características diferentes dos personagens em quadrinhos, porém não menos fantástica – o que dizer daqueles que não só protegem sua família, como também lutam pela paz e sobrevivência de muitas outras desconhecidas, em lugar distante e problemático como o Haiti. País com estatísticas alarmantes de órfãos que hoje recebem o cuidado e atenção de pais  que abdicaram de um período na presença dos filhos e esposa para prestar ajuda humanitária.
Este é o caso do sargento Carlos Henrique Moraes Vinga, 41 anos, pai de 5 filhos, que em dezembro de 2007 foi voluntário para fazer parte da tropa brasileira no Haiti. “Passei Natal, Ano-Novo, aniversário dos meus gêmeos longe, numa missão que durou seis meses. Neste período tive muito contato com crianças de um orfanato. O que mais me comoveu nesta experiência foi presenciar a total falta de amor e condições básicas de sobrevivência daqueles que viviam na rua. Lá eles perambulam sozinhos, imploram por um copo d’água e, não têm a menor ideia do que é uma família, ser protegido, ter direitos garantidos de saúde e educação, na verdade eles é que são heróis de sua própria subsistência”, declara o militar.
Ao retornar para casa Vinga trouxe na bagagem algo  que passou a compartilhar com os filhos, que é a valorização da vida, nos pequenos detalhes. “Ensino a eles que devemos ser gratos por ter uma casa, água, comida, enfim, conforto necessário para uma vida saudável”, desabafa.

Cortando o cordão umbilical
Eles serão sempre heróis, o porto seguro, o exemplo de força e coragem, com traços que os filhos identificam como verdadeiros homens de ferro. Não pela força impressa pelo metal, mas pela aparência inabalável de seus superpoderes. Na visão da pequena Danielle, 5 anos, o pai que está prestes a embarcar para o Haiti, numa missão de seis meses, “vai viajar para bem longe para ajudar outras crianças”.
Segundo o major do Exército, Marcelo de Almeida Maymone, 36 anos, embora esteja em preparação e treinamento para missão há um ano, muito antes de ser selecionado, quando ainda era apenas voluntário, sua preocupação maior ainda é como conduzir da melhor maneira possível essa separação temporária da família. “Minha filha adolescente, Marcelly, 12 anos, entende que o processo faz parte da minha carreira militar e que vou por uma missão nobre de manutenção da paz e estabilização do Haiti, que piorou muito depois da catástrofe do terremoto”, exemplifica Maymone.
Para o major, este Dia dos Pais, será mais que especial, porque no próximo domingo estará embarcando para o país caribenho. “Nos últimos meses tenho primado pela total harmonia do meu lar. Minha esposa Lídia e minhas filhas sabem o quanto elas são importantes para mim, também preciso do apoio delas para superar a distância física. Mas, também creio que meu lar está alicerçado sobre rocha e espiritualmente estaremos sempre juntos”, declara.
Ainda que seja o valente da casa, o capitão Marco Antônio Pires, 34 anos, piloto de helicóptero, se vê com o coração apertado só de pensar que passará seis meses longe da esposa Ana Paula e do filho, Gabriel, 5 anos. “Na minha profissão as viagens são comuns, porém o tempo mais longo que fiquei longe de casa não passou de 20 dias. Assim as constantes viagens e a ausência de casa fazem parte da rotina da minha família. Nesta nova experiência é difícil mensurar como vai ser a reação do meu filho, devido a pouca idade ele não tem muita noção do tempo, mas certamente iremos sentir muita saudade um do outro”, enfatiza.
Como cristão, o capitão Pires acredita que sua missão no Haiti vai lhe trazer experiência profissional e espiritual, além de ser uma oportunidade singular de ajudar ao próximo. “Quanto ao Gabriel, imagino que toda vez que ele ouvir o barulho de um helicóptero, vai achar que estarei chegando...”, finaliza.

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