Sexta, 24 de Novembro de 2017

Memória, fonte de recuperação da vida

8 MAI 2010Por 20h:12

Como areias douradas

Que vão e vêm, assim são as lembranças.

Preenchem tudo, mar

Total de inefável ouro

Com o vento a transportá-las...

São assim as lembranças. (Juan Jamón Jiménez)

 

Foi através da memória, faculdade épica por excelência, que Wilson Barbosa Martins aventurou-se a percorrer o longo caminho da vida pública e particular, resultando daí um retrato dos mais lúcidos de um Estado marcado por contradições de toda ordem.

A narrativa torna-se a história de uma época, ao mesmo tempo em que gravita em torno do eu, da introspecção e das observações do autor que rege a sinfonia da existência com a competência de um chefe de orquestra ou o talento de um arquiteto a reconstruir tijolo por tijolo o edifício dos sonhos.

Consciente de que o passado é uma conquista e de que o verdadeiro paraíso é aquele que perdemos, decide refazê-lo, valendo-se, para isso, das sensações que a memória involuntária lhe fornece. Dessa forma, o livro escrito na primeira pessoa reivindica a responsabilidade das afirmações de quem é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto de ações descritas numa linha de veracidade e coerência.

O ponto de partida é um livro de couro, símbolo metonímico das lembranças dos antepassados, cuja leitura lhe permite unir as duas pontas da vida como queria Machado de Assis: a do menino dos campos da Vacaria e a do homem público, defensor intransigente dos princípios da liberdade e da democracia, que ocupou todos os cargos, amou casou, teve filhos netos e bisnetos e hoje contempla com serenidade as lembranças, que o mar recolheu e o vento transportou.

É uma longa viagem em que se cruzam dois planos o do autor/ emissor, que volta aos campos da Vacaria para reencontrar, na infância, o sabor das cores, dos doces, do cheiro das frutas do mato, e, acima de tudo, o prazer de sentir-se livre e o do leitor preso ao encantamento das histórias. E, como uma imagem puxa outra, surge da névoa das lembranças, a figura da esposa Nelly Martins, com quem gostava de plantar árvores e que foi a grande incentivadora e a responsável pela maioria de suas realizações.

O emissor/narrador, dono do texto, domina, organiza, e ordena o tempo, conta os fatos sem medo, até o fim, enquanto o leitor se torna participante das ações ligadas à memória, essa queimadura que toca a pele da consciência e que justifica a análise insistente do que somos e do porquê do que chamamos vida.

Participamos da chegada de comitivas de gado, ouvimos acordes de violões no silêncio das fazendas, sentimos o calor do fogo aceso de madrugada pelos peões, o acolhimento dado pela mãe à coluna Prestes, acompanhamos a instalação do governo de Vespasiano Martins, no prédio da Maçonaria de Campo Grande e visitamos a São Paulo dos lampiões a gás, onde o autor continuou sua formação.

Afirma Jorge Luiz Borges que cada um de nós se define para sempre em determinado momento, no qual se encontra para sempre consigo mesmo. Para Wilson Barbosa Martins esse momento de definição aconteceu, quando em São Paulo decidiu retornar a Campo Grande, que seria para sempre o palco de seu destino de lutas, centradas na força da família, no carinho da esposa, a artista plástica Nelly Martins, dos filhos e dos amigos.

O leitor, tocado pela largueza das idéias, pelo destemor com que defende a liberdade e a democracia, a força com que abomina as ditaduras, os governos violentos, as tiranias, revolta-se com a injustiça da cassação com que pagou, durante dez anos, a vocação libertária.

Acima de tudo, torna-se cúmplice das descrições minuciosas das duas vezes em que governa o Estado, quando transfere de forma generosa, para as equipes, o sucesso nas diversas áreas, cujas ações descreve com a precisão dos cientistas e a modéstia dos sábios, qual um expert no ofício, mister que domina com a segurança dos que têm algo a dizer. Com essas qualidades construiu uma obra vigorosa que percorremos com prazer da primeira até a última linha.

Segundo Walter Benjamin, só perde o sentido aquilo que no presente não é visado, percebido pela memória. O livro salva a existência de Wilson Barbosa Martins, figura emblemática e fundamental da história e recupera a memória social de um Estado que tem nele um de seus principais construtores.

 

(Texto de apresentação do livro Memória – Janela da História, de Wilson Barbosa Martins, lançado dia 6 do corrente no Rádio Clube Cidade de Campo Grande.)

 

Maria da Glória Sá Rosa

Leia Também