Domingo, 19 de Novembro de 2017

Cenas de Campo Grande

Mato Grosso do Sul, minha terra!

18 FEV 2010Por 06h:35
Por várias ocasiões me senti sul-mato-grossense, mesmo tendo nascido no interior de São Paulo. São vários os momentos que revelam se você é ou não “nativo” ou mesmo se passou a chamar o local onde mora de “minha terra” depois de anos habitando uma cidade que não é seu berço. Mas, um episódio bastante especial sobre minha identidade sul-matogrossense ocorreu recentemente durante uma sessão de cinema. A exibição aconteceu durante o 7º Festival de Cinema de Campo Grande (FestCine Pantanal, realizado em janeiro) na noite de comemoração dos “100 Anos de Cinema em Campo Grande”, no Cine- Cultura. O filme em questão era “Alma do Brasil” (na foto, uma das cenas) – a primeira produção cinematográfica realizada na região sul do então Mato Grosso. Lançado em 1931, é inspirado em romance de Visconde de Taunay sobre o episódio da Retirada da Laguna na Guerra do Paraguai, com direção de Líbero Luxardo. O evento celebrava a primeira exibição de cinema na cidade, ocorrida em 1910. No entanto, não constam informações sobre qual foi a película exibida naquele dia. “Alma do Brasil” já havia sido mostrado outras vezes em Campo Grande, mas esta sessão teve acompanhamento musical feito pelo pianista Adriano Magoo – uma vez que o filme é mudo. A sala do CineCultura estava superlotada – tanto que ainda houve sessões extras com a obra. As cenas das batalhas no campo, fome, a miséria dos brasileiros que lutaram na guerra, em terras onde hoje situa-se Mato Grosso do Sul, foram comovendo o público presente até que o hino do Estado, na partitura de Magoo, fez cada um naquela sala sentir-se um pouco sul-mato-grossense. O belíssimo hino do Estado foi escolhido por concurso e instituído pelo Decreto nº 3 de 1 de janeiro de 1979. A letra é de Jorge Antônio Siufi e Otávio Gonçalves Gomes, enquanto a música tem autoria de Radamés Gnattali – famoso arranjador, compositor e instrumentista brasileiro. Gnattali (1906 – 1988) compôs músicas com Tom Jobim e tinha no círculo de amizades músicos como Cartola, Heitor Villa-Lobos e Pixinguinha. Por dois momentos, o hino foi tocado. As imagens na telona retratando o sofrimento daqueles que estavam em guerra para proteger o território, em consonância com aquela melodia, soaram como uma aula de história, retrato de um passado que não é comumente invocado pelo lirismo da linguagem cinematográfica. Somos bombardeados com histórias estrangeiras e como consequência é comum pensarmos que outros países têm mais histórias de luta, ou mesmo detêm mais sentimento de patriotismo do que aquele povo que não dispõe de ferramentas como roteirizar guerras e transportálas ao mundo do cinema, no qual as sensações são afloradas. Se a execução de um hino é a expressão máxima de respeito à terra, então eu naquele momento, ouvindo aquele belíssimo hino e assistindo às cenas de ficção que tratavam um período tão tenso para o território – poderíamos estar falando espanhol hoje – era a sul-mato-grossense mais orgulhosa da sala. Confesso que ainda não sabia a dimensão do meu afeto pelo Estado, que sem dúvida, é a minha terra.

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