Sexta, 24 de Novembro de 2017

Máquina emperrada

10 ABR 2010Por 20h:54

O Brasil cresce em ritmo acelerado. A economia mostra sinais inequívocos dessa pujança. O setor privado, muito mais ágil, tem apontado o caminho para um desenvolvimento sustentável. Para isso, investe não só em prédios e equipamentos, mas principalmente nos seus recursos humanos. Tem recrutado profissionais competentes e capacita seus quadros já existentes. O gasto com aperfeiçoamento, para os investidores privados, não é classificado como "custo", e sim, como investimento. Afinal, de nada adianta uma empresa possuir magníficas instalações e máquinas, se seus funcionários não souberem operá-las ou não tiverem habilidade de convivência entre si, com os fornecedores e eventual público consumidor.

Se essa é a realidade do setor privado, na área pública não constatamos a mesma competência. Aliás, salvo algumas raras exceções, o que vemos é a mais absoluta incompetência. Apesar da descomunal carga tributária, que carreia aos cofres públicos uma enormidade de recursos, esses são mal gerenciados. Perdem-se na corrupção e na máquina extremamente emperrada. São empecilhos que freiam o desenvolvimento do país. A nossa sorte é que o setor privado ganhou musculatura. Tem tido força suficiente para arrastar o setor público. Imaginemos a força do Brasil se tivéssemos a máquina estatal com essa mesma capacidade. Os resultados seriam muito, mas muito mais positivos. Atingiríamos, sim, um grau de desenvolvimento próximo ao dos países de primeiro mundo.

Não resta dúvida de que essa situação em que nos encontramos é fruto de um desvio de comportamento de nossos homens públicos. Já não temos mais estadistas. Se existem, eles são raros e abafados pela vontade de uma maioria. E esta não tem compromisso com a razão de ser da existência de seus cargos. Preocupam-se tão somente com seus próprios interesses ou de grupos de apoio. Com esse comportamento mesquinho e covarde, além de encherem seus bolsos – e de seus protegidos – de dinheiro, disseminam esses valores desvirtuados por toda a estrutura organizacional pública, contaminando-a.

É lastimável que essa situação perdure no Brasil. Aliás, não é de hoje. Afinal, desde o descobrimento é que vemos a mesma prática, salvo em raros períodos da nossa história, pela assunção aos altos cargos da nação de pessoas imbuídas de bons propósitos, com postura de verdadeiros estadistas, quando experimentamos alguns saltos de desenvolvimento, cujos legados perduram até os dias atuais. Mas, sem continuidade, seus sucessores provocaram o atraso. Desperdiçamos dinheiro e energia. E mais do que isso, não pudemos aperfeiçoar o serviço público. Este, sem líderes bem intencionados e comprometidos com o bem comum, além de sufocar o exercício da cidadania, trava o desenvolvimento.

Só temos um caminho para inverter esse quadro: escolhermos bem nossos governantes. Mas não é só. Devemos também cobrar uma boa administração, de todos os poderes. Afinal, somos os pagadores da máquina pública e destinatários de suas ações. Somos os donos deste país. E como tal, precisamos acompanhar o trabalho dos nossos gerentes e funcionários. Se eles trabalharem bem, teremos mais lucro – qualidade de vida - mas se ficarmos inertes, seremos coniventes e sofreremos as consequências. É uma questão de escolha.

MAURI VALENTIM RICIOTTI, é Procurador de Justiça.

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