Quarta, 22 de Novembro de 2017

Luto por um amor vivo

27 MAI 2010Por 06h:14
OSCAR ROCHA

Quase ninguém está imune. Como diria a sabedoria popular: atire a primeira pedra quem nunca sofreu por amor. Mais que apelativo, mote para letra de canção, o fim do relacionamento traz diversas perspectivas, desde  sofrimento momentâneo, passando pela violência até depressão. Em todas as faixas etárias, praticamente, é possível visualizar tal situação, mas é no período da adolescência e no início da fase adulta que o problema pode ganhar contornos mais dramáticos, muitas vezes causado por questões inerentes à educação recebida em casa.

O professor e psicólogo Roberto Moraes Cruz, da Universidade Federal de Santa Catarina, há cerca de 8 anos participa de pesquisa sobre os sentimentos mais comuns no fim de relacionamento amoroso, juntamente com outros professores e estudantes da área de psicologia – parte do resultado levantado pelo estudo será publicado em livro, com lançamento previsto para o próximo mês. Segundo ele, muito do sofrimento exacerbado no rompimento amoroso verificado nos mais jovens nasce do processo de infantilização decorrente da má orientação dos pais. “O que assistimos, cada vez mais, é a pessoa demorar para ser produtiva para sociedade, ficando dependente dos pais por mais tempo. Nesse processo, o pais terminam por não orientarem os filhos de forma adequada. Mostrando que a perda é um processo natural ao longo da vida. Isso explica porque jovens de 16, 17, 18 anos, com comportamento de criança. É reflexo dessa má orientação”, aponta o pesquisador.

A psicóloga paulista Olga Inês Tessari, com alguns anos de experiência no acompanhamento de jovens em crise emocional após fim de relacionamentos, também avalia que os pais têm parcela de responsabilidade nesse processo. “Neste momento, quando os pais estão distante dos filhos por causa do trabalho, dos compromissos sociais, acabam tendo sentimento de culpa, terminando por dizerem poucos ‘não’, aceitando tudo que o filho faz, isso traz consequência na formação deste jovem, que não aprende a aceitar a perda”, aponta Olga.

Na literatura ligado ao estudo da psicologia, o fim do relacionamento amoroso pode ser caracterizado como uma “morte em vida”. Em muitos casos, a separação da pessoa amada tem a mesma intensidade do luto pela morte de uma pessoa da família ou amigo. No trabalho feito por Roberto Cruz e outros participantes, em certo trecho é destacado: “Segundo Freud, o luto profundo, como reação à perda de alguém que se ama, pode ser resumido como um estado de espírito penoso, na cessação de interesse pelo mundo externo, na perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significa substituí-lo) e no afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. O indivíduo em luto geralmente experimenta um desejo de reparar a perda e destruir o objeto que foi internalizado como “bom” (Baker, 2001). É impossível prever quanto tempo durará o “período de luto”, assim como é difícil determinar o momento em que ele começa efetivamente (Giusti, 1987). Segundo Féres-Carneiro (1998), o tempo de elaboração do luto pela separação pode ser maior do que aquele do luto por morte”.

Na avaliação de Olga, atualmente, muitos jovens, por não saberem lidar com essa perda, terminam encontrando soluções extremadas e prejudiciais. “Não saber lidar com o rompimento pode levar o jovem às drogas. Claro que isso não quer dizer que este é o único fator, mas contribui muito em alguns casos”. A psicóloga aponta que o assunto deve ser entendido em toda a sua complexidade pelos pais. “Não pode ser tratado como se fosse uma bobagem ou algo que o jovem pode resolver sozinho. É preciso muita conversa e atenção; por outro lado, não se pode prolongar, alimentar esse período de dor dos jovens”.
Outro aspecto relativo ao assunto é a violência que pode surgir no fim de relacionamento conturbado entre jovens. Roberto detecta características atuais que podem alavancar os números de casos que unem violência e jovem. “Defino com geração ‘Ipod’, aquela que é individualista e que se comunica pouco.
Imagine esta geração aliada ao infantilismo, no qual o egocentrismo é comum, mais formação problemática de personalidade, resultam em pessoas que cometem crime em nome do fim de relacionamento. O pior é que acho que esta tendência somente vai aumentar”, aponta. Para Olga, o fim de relacionamento tem que se encarado como algo natural. “Os pais precisam mostrar, desde cedo, que a perda faz parte da vida, somente assim podem ajudar seus filhos no futuro”, finaliza a psicoterapeuta.

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