Segunda, 20 de Novembro de 2017

Crônica

Lutadores

29 JUN 2010Por 08h:14
Como tive a bênção de ter começado a trabalhar com dez anos de idade, adquiri o hábito de respeitar todo aquele que moureja, respeito que nem sempre se dá aos demais. Aliás é  mesmo da natureza humana que economiza loas a quem se faz merecedor na mesma proporção que demoniza à larga os que não trabalham, aí incluídos os que se pensa que não trabalham...

É mesmo comum a gente ouvir palavras ácidas dirigidas a esse bando de vagabundos e vagabundas. Quem são eles, se pergunta, e a resposta calcada de maldade e falta de respeito é sempre a mesma: são essas mulherzinhas, a maioria biscate e os rapazes que nada fazem, ou melhor, fazem, são quase sempre viciados e frequentadores da faculdade do crime. Se há uma coisa que me fere, e muito, é essa injustiça perpetrada exatamente contra quem rala o dia inteiro para ganhar o suado pão de cada dia. Onde há maldade nisso, não sei, pois ando nos supermercados e balcões os mais diversos, o que vejo é exatamente o contrário. São moças e senhoras também ainda moças atrás das caixas registradoras ou dos balcões, pessoas merecedoras não apenas de respeito como de carinho que poderia pelo menos lhes soar como um agrado ao seu ego. E lhes conto que, por ser um cara muito conversador e também por ter passado grande parte de minha vida mourejando atrás de um balcão, sempre converso alguns minutos com essas maravilhosas pessoas.

E aqui me permito lembrar o ensinamento do fundador dos Vicentinos que pregava que se desse, quanto menos fosse, a caridade suprema de lhes dedicar dois dedos de prosa, isso, ele explicava, eleva ao alto o respeito por se sentir alguém que mereça a consideração vinda de um desconhecido. Isso, ele completava, é o que o Mestre chamava caridade, a suprema caridade de demonstrar carinho e conforto pela pessoa humana, sobretudo quando desconhecido. Se você não tem nada material para dar, dê coisa melhor, muito melhor, o carinho que só o amor desinteressado pode dar, basta que você se coloque no lugar do outro e sinta o prazer indizível de se ver elevado à condição de ouvinte e falante, numa relação de amizade, ainda que de desconhecido.

Pois bem, eu nessa espécie cristã de conhecimento, descobri no meio das “biscates”, que além de não serem o que maldosamente dizem, são esposas e mães amantíssimas que acordam as quatro da manhã para preparar um pobre almoço que levarão para esquentar no trabalho e matar um pouco da muita fome que terão. Da mesma maneira os rapazes, acoimados de vagabundos, estão também por lá, num trabalho às vezes humilde de ajudante de trabalhos gerais, mas honrado. Ele e ela, cada um trabalhando oito a dez horas por dia, só voltarão a se encontrar lá pelas sete ou oito horas da noite, cansados, sem duvida, mas com a alma limpa de quem vive honestamente.

O homem, infelizmente é levado a dar crédito à notícia maldosa, tornando-se mais fácil acreditar no que ouvem, do que na verdade que se esconde em cada um. Esses trabalhadores anônimos heróis da difícil vida de pobre, se constituem no exemplo a ser seguido pelos demais, esses, na verdade, formam o exemplo vivo bíblico de “comerás o pão com o suor do teu rosto”. E eu não quero que se infira daí que eles são os merecedores únicos de nossa admiração, não, os citei apenas para registrar que não são o que alguns proclamam, fazem parte, isto sim, da imensa pleiade que vive do trabalho honesto como os demais, Talvez um pouco mais humildes, mas tão valorosos como todos desse exército em que nos constituímos.

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