Lutador de jiu-jitsu supera barreira corporal

LAíS CAMARGO 08/05/2011 08h00

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Foto: Laís Camargo
Primeiro lugar no campeonato baiano e terceiros lugar no Pan-Americano. “Jiu-jitsu não tem paraolimp

Tatame é lugar de luta. De luta com o adversário, com o tempo, com os golpes, o cansaço e com os limites. Acontece de um dia a luta mudar de lugar, de um dia ao andar de moto - como fazia há mais de 20 anos - um carro vir e bater. Acontece de um dia acordar de um coma de 28 dias na Santa Casa e com o braço esquerdo amputado.

Mas a mesma luta que cansa e exige preparo, também reergue. “Eu tive falência múltipla de órgãos, só meu coração e pulmão funcionavam e ainda com sangue na cavidade. Perdi 80% do sangue do corpo, mas fui consciente até o hospital. Depois de 28 dias de coma, a médica me disse que amputaram meu braço. Foram 15 minutos de choque, mas como o pior já tinha passado, eu queria sair logo da Santa Casa. Então coloquei na minha cabeça que quanto mais rápido eu melhorasse, mais eu podia tentar levar a vida normalmente”.

“Jiu-jitsu não tem paraolimpíadas”

Adilson Higa, 39 anos, primeiro lugar no campeonato baiano e terceiros lugar no Pan-Americano. “Jiu-jitsu não tem paraolimpíadas”.

Há pouca diferença entre antes e depois do acidente, Adilson não fala com revolta ou usa o fato para tirar vantagem. Pelo contrário, treina pesado para lutar de igual para igual. Afirma que o esporte é baseado em técnicas de alavanca e torções e que é possível fazer isto com um braço, ate porque o jiu-jitsu é uma luta que acontece a maior parte do tempo no chão, com imobilizações certeiras.

Falta ainda patrocínio, falta a explosão de um jogo nos “velhos tempos”, mas a situação agora é outra, como se os anos de prática tivessem ganho um espaço para expor a perspicácia de um bom lutador. “Vou treinando tudo pra minha realidade do jiu-jitsu, que é um jogo mais junto, mais técnico e cadenciado”.

O acidente aconteceu em setembro 2009. Em abril de 2010 Adilson competiu em Campo Grande e levou o vice-campeonato. A recuperação só foi possível pelos pulmões limpos e a vida dedicada ao esporte, que começou cedo, aos 5 anos de idade. A criança agitada que os pais colocaram no judô, se tornou o jovem que se mudou para o Japão e começou a encarar o esporte como vê hoje – oportunidade de superar limites. Fora do país conheceu o jiu-jitsu, voltou para o Brasil como tricampeão japonês, bicampeão do All Japan e 38 lutas de vale-tudo com 36 vitórias.

Não há motivos para se poupar, hoje Adilson está contando os dias para o campeonato brasileiro de jiu-jitsu no Rio de Janeiro (na segunda semana de maio), e também faz contagem para o término da construção da sede própria da academia, no bairro Maria Aparecida Pedrossian. “Se estou conseguindo resultados bons, vou continuar, enquanto eu tiver prazer, vou continuar”.

Continuar movido por um uma paixão que sempre existiu, e não nutrindo uma força que precisa existir agora que a situação é outra. Parece que as pessoas em volta incomodam-se mais que ele com a falta de um braço. Na verdade, a lição parece ser ainda mais clara: não há situação tão permanente que mereça uma revolta cega a ponto de não conseguir enxergar as verdadeiras lutas que ainda estão por vir.


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