Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local
Quantos filmes equatorianos você conhece? Quantos venezuelanos já assistiu? E quantas produções do Paraguai, país que divide fronteira com Mato Grosso do Sul, chegaram às salas de cinema ou às plataformas brasileiras?
As perguntas lançadas por Nilson Rodrigues, idealizador e diretor do Bonito CineSur, parecem simples, mas revelam um dos grandes paradoxos culturais do continente: a América do Sul produz filmes reconhecidos nos principais festivais do mundo, mas seus países ainda conhecem muito pouco o cinema realizado pelos próprios vizinhos.
“Quantos filmes equatorianos você conhece? Quantos filmes venezuelanos já viu? Quantos colombianos ou chilenos? A gente vê muito pouco”, provoca Nilson em uma conversa exclusiva para o Caderno B+ diretamente de Bonito.
“Não é que não exista uma produção relevante. O Paraguai foi premiado em Berlim, o Chile vai ao Oscar, a Colômbia vai ao Oscar. Existe uma produção argentina incrível, uma produção brasileira muito forte. O que existe é uma enorme barreira de circulação.”
Foi para começar a romper essa barreira que o Bonito CineSur nasceu, em 2023. Em apenas quatro edições, o Festival de Cinema Sul-Americano transformou Bonito, já conhecida mundialmente por suas belezas naturais, em um território de encontro entre realizadores, produtores, atores, distribuidores, críticos e públicos de diferentes países.
Na edição de 2026, realizada entre 24 de julho e 1º de agosto, o festival recebeu o recorde de 905 filmes inscritos. Na primeira edição, foram 657, o que representa crescimento de 37%. O público também mais do que dobrou: passou de 4.200 pessoas, em 2023, para 9 mil em 2025, alta de 114%.
Antes mesmo de contabilizar os resultados deste ano, mais de 18.200 pessoas já haviam participado das atividades do CineSur.
A quarta edição selecionou 32 produções competitivas de dez países da América do Sul, distribuídas entre longas e curtas sul-americanos, cinema ambiental e filmes de Mato Grosso do Sul.
A produção regional conquistou um espaço ainda maior: oito obras sul-mato-grossenses entraram na competição, duas a mais do que no ano anterior. Mas, para Nilson, os números são apenas uma parte da história.
“A gente partiu de uma tese: reunir a produção sul-americana recente e criar um ambiente de encontro entre produtores, atores, atrizes e realizadores. Um lugar onde também fosse possível discutir projetos e estimular coproduções”, explica. “Existe uma barreira muito grande entre os países. O festival nasce para criar condições de aproximação.”
Nilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local - Fotografando Bonito - DivulgaçãoUma vida dedicada ao cinema
O CineSur também é resultado de uma trajetória de mais de quatro décadas. Produtor, exibidor e gestor cultural, Nilson Rodrigues começou a trabalhar com festivais ainda nos anos 1980.
Foi coordenador e diretor de diferentes edições do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, idealizou o Festival de Inverno de Bonito e o Festcine Pantanal, em Campo Grande, além de ter integrado a Diretoria Colegiada da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, entre 2005 e 2009.
Como exibidor, fundou o Cine Cultura de Campo Grande e, posteriormente, o Cine Cultura Liberty Mall, em Brasília, voltado especialmente ao cinema brasileiro e à produção independente mundial. Como produtor, participou de títulos como Tainá 3 – A origem, O outro lado do paraíso e O pastor e o guerrilheiro.
Agora, vive um momento especialmente movimentado com dois novos filmes. Nilson é produtor de Honestino, dirigido por Aurélio Michiles e protagonizado por Bruno Gagliasso nas sequências dramatizadas, e de Justino – Nos Bastidores do Reino, novo longa de José Eduardo Belmonte.
Na entrevista, ele brincou com a coincidência entre os nomes: “Honestino e Justino. Honesto e justo”. “Estou muito animado. Um dos filmes entra nas salas de cinema e o outro inicia sua carreira nos festivais”, conta.
Esse trânsito entre festivais, salas de exibição, produção e políticas públicas deu a Nilson uma visão ampla das dificuldades enfrentadas pelo audiovisual.
“O mercado é ocupado pelo cinema hegemônico dos Estados Unidos, e nem pelo cinema norte-americano em toda a sua diversidade. O cinema independente dos Estados Unidos também é muito potente.
O que recebemos aqui é aquilo que vem da grande indústria”, observa. “E, da mesma forma que essa indústria ocupa o mercado brasileiro, ocupa também a Argentina, o Paraguai, a Bolívia e o Chile.”
O CineSur não pretende resolver sozinho um problema que envolve legislação, distribuição, investimento, regulação das plataformas e políticas públicas. Nilson é o primeiro a reconhecer os limites de um festival.
“O festival não resolve os problemas do mercado, da circulação ou da regulação. Mas conecta as pessoas. Estimula a produção e também a aquisição dos filmes”, afirma.
Um exemplo concreto aconteceu após a edição anterior, quando um filme chileno premiado em Bonito despertou o interesse de uma distribuidora brasileira. Para um longa que talvez não encontrasse espaço no Brasil, o encontro representou uma possibilidade real de chegar a um novo público.
“Isso tem importância. Precisamos trazer mais distribuidores para ver esses filmes, além de mais produtores. Mas isso também depende das condições econômicas do festival, da ampliação dos apoios e dos patrocínios”, diz Nilson.
Estrelas do continente em Bonito
A força de um festival também se mede por sua capacidade de reunir os grandes nomes do cinema sem afastá-los do público. Em 2026, Bonito recebeu artistas conhecidos nacional e internacionalmente, mas manteve sessões, debates e encontros com acesso gratuito.
A abertura foi apresentada por Reynaldo Gianecchini e pela atriz e coordenadora geral Andrea Freire. O primeiro fim de semana teve ainda a presença de Bruno Gagliasso e do diretor Aurélio Michiles, que apresentaram a pré-estreia nacional de Honestino, filme sobre o líder estudantil Honestino Guimarães, sequestrado e desaparecido durante a ditadura militar.
João Moreira Salles participou de uma aula magna sobre o documentário e apresentou Minha terra estrangeira, codirigido por Louise Botkay. A programação também reuniu o documentarista Vincent Carelli, criador do projeto Vídeo nas Aldeias; o cineasta Luiz Carlos Lacerda, o Bigode; além de produtores, curadores, críticos e realizadores de vários países.
Até o encerramento, o festival ainda recebe Paulo Betti, responsável por uma conversa sobre interpretação para cinema e televisão, e Valentina Herszage, atriz de Ainda Estou Aqui, que apresenta com ele a cerimônia de premiação.
A grande homenageada da edição foi a chilena Paulina García, vencedora do Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim por Gloria. Atriz, diretora teatral e dramaturga, ela recebeu o Troféu Pantanal na abertura, que exibiu Querido Trópico, coprodução de Panamá e Colômbia na qual interpreta uma mulher que enfrenta o avanço da demência.
“Paulina é uma atriz incrível, maravilhosa, um orgulho para a América Latina e para a América do Sul”, afirma Nilson. “Esses momentos são especiais porque nos colocam diante daqueles que fizeram e continuam fazendo a história do nosso cinema. São artistas que revelam a grandeza da nossa produção.”
O festival também celebrou o cineasta argentino Luis Puenzo com uma sessão de A História Oficial, primeiro filme latino-americano a vencer o Oscar de melhor produção internacional. Lançada em 1985, a obra expôs o sequestro de crianças durante a ditadura argentina e ajudou o país a enfrentar uma memória que ainda estava aberta.
“O impacto desse filme na Argentina foi enorme”, ressalta Nilson. “Quando A História Oficial revelou o sequestro das crianças e a brutalidade dos militares, contribuiu para que o país olhasse para aquilo que havia acontecido.”
Nilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local - Fotografando BonitoCinema que chega à comunidade
Embora as estrelas ajudem a projetar o evento nacionalmente, uma das iniciativas mais importantes do CineSur acontece longe dos tapetes vermelhos.
O Bonito CineSur Educa oferece gratuitamente oficinas, palestras, debates e sessões dirigidas especialmente a estudantes, crianças, jovens, profissionais do audiovisual e moradores da cidade.
Nesta edição, a programação formativa incluiu oficinas de realização de documentário, roteiro, desenvolvimento de projetos audiovisuais e mercado. As chamadas “charlas cinematográficas” discutiram temas como protagonismo feminino, aquisição e licenciamento de conteúdo, crítica de cinema, memória, interpretação e os 40 anos do projeto Vídeo nas Aldeias.
Uma oficina de cinema de animação foi levada ao Projeto Garoto Cidadão, iniciativa que atende no contraturno escolar crianças e adolescentes da rede pública e em situação de vulnerabilidade social. Durante cinco manhãs, os participantes tiveram contato com técnicas de criação e produção de animações.
Os trabalhos desenvolvidos pelas crianças serão apresentados ao público na Mostra Comunidade, ao lado dos documentários realizados por moradores durante o festival.
A iniciativa muda a relação da população com o evento. Em vez de apenas receber artistas e filmes vindos de fora, Bonito também passa a produzir suas próprias imagens, registrar suas histórias e formar novos realizadores.
O festival promoveu ainda sessões infantojuvenis gratuitas, com filmes como Colegas e o herdeiro, Eu e meu avô Nihonjin e Dentro da caixinha – Mundo de Papel. Ao abrir espaço para crianças que muitas vezes não têm acesso regular a uma sala de cinema, o CineSur transforma a experiência cultural em uma ação de inclusão.
“Precisamos produzir cinema, produzir séries e nos ver”, resume Nilson. “É muito estranho viver em um país e ficar experimentando apenas aquilo que supostamente acontece nos Estados Unidos. Precisamos das nossas imagens e das nossas histórias.”
Meio ambiente, identidade e território
Realizar um festival em Bonito também significa assumir uma responsabilidade ambiental. Por isso, o CineSur criou uma mostra competitiva dedicada ao tema, reunindo filmes que discutem mudanças climáticas, contaminação das águas, exploração de recursos naturais, preservação dos territórios e resistência dos povos originários.
“A gente não poderia fazer um festival de cinema em Bonito sem criar uma mostra ambiental”, diz Nilson. “O cinema é uma grande ferramenta de debate e reflexão sobre a necessidade de preservação do planeta e sobre as responsabilidades ambientais que temos.”
O diretor destaca que as urgências não são iguais em todos os países. O Chile enfrenta determinadas questões, enquanto a Amazônia brasileira, colombiana e equatoriana apresenta outras. Bolívia, Argentina e Paraguai também chegam ao festival com seus próprios conflitos ambientais.
“Nos filmes, você vê cada país trazendo suas urgências. O cinema participa desse debate e permite que a gente conheça realidades diferentes das nossas”, afirma.
Nilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local - DivulgaçãoImpacto além das telas
O CineSur também movimenta hotéis, restaurantes, transporte, serviços técnicos e profissionais da economia criativa. Em 2025, a programação reuniu 63 filmes de dez países, somou 120 horas de atividades gratuitas e envolveu 60 instituições públicas e privadas.
Foram contratados 250 serviços profissionais ligados à produção, equipamentos, hospedagem, alimentação e deslocamento. O evento alcançou 9 mil pessoas presencialmente e mais de 619 mil nas redes sociais.
Os resultados ajudam a demonstrar que cultura e turismo não são forças concorrentes. Ao contrário: um festival amplia o calendário da cidade, atrai visitantes, gera renda, cria empregos temporários e oferece novas experiências a quem chega a Bonito.
A logística, porém, é um desafio. Passagens aéreas caras, distâncias e a necessidade de transformar espaços em salas com padrão de exibição cinematográfica aumentam os custos.
“É claro que fica mais caro. Trazer as pessoas para cá é desafiante. Mas Bonito está no coração da América do Sul”, defende Nilson. “Mato Grosso do Sul faz fronteira com dois países. O festival tinha que ser feito aqui. Estamos construindo, aos poucos, um território de encontro dessas cinematografias sul-americanas. Nunca tive dúvida disso.”
As próximas pontes
Para a quinta edição, Nilson quer ampliar a presença de distribuidores, instituições de fomento e autoridades responsáveis pelas políticas cinematográficas dos países. O objetivo é avançar não apenas nas coproduções, mas também na codistribuição.
“A coprodução é fundamental porque, quando um filme é realizado entre dois países, ele passa a ter duas nacionalidades e pode ser tratado como produto nacional nos dois lugares”, explica. “Ainda fazemos poucas coproduções entre os países sul-americanos.”
O próximo passo seria criar mecanismos para que os filmes também fossem distribuídos em conjunto.
“Já temos alguns programas e editais de coprodução entre Brasil, Argentina e Uruguai, mas precisamos avançar. Está faltando pensar a codistribuição: criar estímulos para que o filme seja distribuído lá e aqui. Assim ampliamos as possibilidades de conhecer aquilo que produzimos.”
Nilson lembra uma frase de Luiz Carlos Barreto, homenageado na abertura do festival poucos dias depois de sua morte: um país que não produz seu próprio cinema é como uma casa sem espelhos, na qual as pessoas não conseguem se ver.
O Bonito CineSur amplia essa imagem. Um continente que não assiste ao próprio cinema também perde a capacidade de se reconhecer.
Em quatro anos, o festival ainda não derrubou todas as barreiras de circulação, e jamais prometeu fazer isso sozinho. Mas já mostrou que, entre as fronteiras de Mato Grosso do Sul, é possível criar um espaço no qual a América do Sul finalmente começa a olhar para si mesma.