Domingo, 19 de Novembro de 2017

Linguística contemporânea

8 MAI 2010Por 21h:15

Se formos considerar atentamente as peculiaridades da linguagem na época moderna em nosso país, será fácil perceber que estamos diante de um fenômeno, por assim dizer, nacional: é pouco numerosa a quantidade de pessoas que conseguem se expressar com clareza na linguagem escrita. Não estou falando de escrever como os escritores consagrados, e sim de uma realidade com que os professores se deparam todos os dias nas salas de aula: parece que está se tornando a cada dia mais difícil, para os estudantes, concatenar as ideias com clareza e produzir textos que tenham um mínimo de coerência. O mesmo fenômeno pode ser observado nas profissões que exigem, como pressuposto para o seu exercício, o domínio da língua escrita, como nos casos dos profissionais do direito e do jornalismo, por exemplo. Quanto à linguagem falada, o português no Brasil é extremamente maltratado.

Paulo Rónai, intelectual húngaro que ensinava latim e publicou diversos livros no Brasil, afirmou, em "Como aprendi o português e outras aventuras", que nossa língua se assemelha ao latim falado por crianças e velhos sem dentes. Estava se referindo ao grande número de palavras com ditongos e sonoridades nasais existentes no português, o que não existe com tanta frequência em outras línguas derivadas do latim, como o italiano e o espanhol. Estava se referindo a uma particularidade da língua portuguesa, a sua sonoridade muito característica e agradável ao ouvido, sobretudo quando falada corretamente. Acrescente-se a isso o fato de o português ter se enriquecido de um grande número de palavras oriundas de línguas indígenas e africanas, e o resultado é uma mistura riquíssima, de "sabor" inigualável no mundo inteiro.

Na linguagem do dia a dia, no entanto, as pessoas maltratam excessivamente o nosso rico português. Há uma distância enorme entre o português falado nas ruas e o português escrito (quando bem escrito). Essa falta de cuidado no uso diário da língua reflete-se na distância excessiva entre o idioma falado coloquialmente e o uso culto do português, quando é necessário valer-se de nossa língua obedecendo com rigor às suas normas gramaticais. Aí é que está o problema: devido ao pouco contato com a forma culta da língua portuguesa, o que deve ser buscado, sobretudo, por meio da leitura, não é muito comum encontrar, no Brasil, quem possa expressar-se bem por escrito. Não estou falando em escrever de uma maneira rebuscada e pedante, mas simplesmente atentando para a forma simples e correta como deve ser escrito o nosso idioma.

No início do século dezenove, um grande linguista, Karl Wilhelm von Humboldt, afirmou que a linguagem nos fornece meios finitos para usos infinitos. Os meios de que dispomos para a expressão estão colocados no cérebro, o que significa que são finitos, enquanto que o uso que podemos dar a esses meios é infinito. A característica mais distintiva do ser humano não é simplesmente ter a linguagem, pois se sabe há um bom tempo que a comunicação existe também entre os animais "irracionais", com seus sistemas extremamente eficazes de comunicação, mas que servem a finalidades rigorosamente limitadas. Descartes afirmou que a melhor indicação de que se está diante de um ser humano consiste no seu poder de usar a linguagem de um modo criativo, ou seja, a capacidade humana de expressar uma série ilimitada de pensamentos através de um mecanismo finito, contido no cérebro.

Um grande linguista contemporâneo, Noam Chomsky, formulou, em meados do século passado, um projeto de pesquisa por meio do qual procurou definir os princípios e as maneiras usados pelo cérebro humano para exprimir pensamentos de modo ilimitado, partindo de um conteúdo limitado. Nomeou sua pesquisa de gramática generativa, a qual consiste, resumidamente, na hipótese de que a capacidade extraordinária do ser humano para expressar-se de forma criativa deve basear-se naquilo que poderia ser chamado de dotação biológica ou genética. Segundo Chomsky, as crianças possuem já disponíveis em sua mente, mesmo antes de começarem o aprendizado intenso que desenvolverão durante a infância, uma base de conceitos que elas podem, com uma quantidade limitada de experiência, ligar a sons particulares. As crianças, nos períodos de aprendizado mais intenso, adquirem cerca de dez novas palavras por dia no seu ambiente, o que significa que são capazes de aprender novas palavras mesmo com pouca exposição a elas. Chomsky concluiu que as crianças devem ter em sua mente, de maneira inata, o conceito e a estrutura sonora, e aquilo que aprendem é ligar as duas coisas, adquirindo, através do aprendizado, a ligação entre o conceito e a estrutura sonora.

As ideias de Chomsky são revolucionárias, apesar de que evocam as "ideias inatas" de um pensador muito mais antigo, Platão. A respeito de tudo isso, o que há para assinalar na observação atual do uso da linguagem no Brasil é que há motivos muito convincentes para se acreditar que a habilidade com a linguagem é, no ser humano, fator distintivo de sua natureza, determinado, inclusive, geneticamente. Portanto, cuidar um pouco mais da linguagem deveria ser sempre uma preocupação tão destacada quanto costuma ser, sobretudo nas sociedades pós-modernas, inclusive no Brasil contemporâneo, cuidar da própria imagem.

 

Ricardo Joerke, advogado e revisor

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