Segunda, 20 de Novembro de 2017

Leite humano

13 ABR 2010Por 20h:48
Em trinta anos, embora já houvesse pensado na importância da amamentação, eu nunca havia pensado na importância da doação do leite humano para mães e bebês necessitados.

Esse meu nunca havia pensado talvez tenha se dado por dois motivos: o primeiro mais simples: eu nunca precisei de leite humano; o segundo mais sério e relevante: nunca ninguém chamou minha atenção para essa necessidade.
Minha vida deu uma reviravolta no ano de 2010 e uma gravidez gemelar, aparentemente tranquila, transformou-se em uma grande aventura, com momentos e sentimentos tristes e outros de vitória.

Meus bebês nasceram com vinte e sete semanas em decorrência de uma infecção. Susto! Tristeza! Desespero! Medo! Sentimentos que invadiram a minha vida, a vida dos meus familiares, a vida dos nossos amigos.

Ver meus filhos, tão frágeis, ainda não formados, tão pequeninos dentro de uma incubadora; não poder colocá-los no colo, não poder beijá-los, não poder sequer afagar seu corpinho depois do longo choro por motivo de uma picadinha de injeção; chegar em casa, ver os bercinhos, roupinhas, touquinhas, sapatinhos, todos à espera dos bebês e não tê-los em casa... Dói! Dói muito, tanto que é difícil para quem não passou por isso, ou está passando por isso, dimensionar o tamanho da angústia e da dor que nós mães sentimos.

Os primeiros dias são os piores, o tempo parece que não vai passar, o medo de chegar ao hospital e ter uma notícia não muito boa, aliás, acostumar-se com notícias não muito boas, o vem e vai do hospital, o entra e sai de máquinas, os apitos e luzes piscando de toda a abençoada tecnologia, tudo isso torna-se uma nova realidade difícil de aceitar.
Até que a aventura passa a ter bons momentos como descobrir que seu marido é mais admirável do que você imaginou, que ele põe maçã na sua bolsa, insiste para que tome água, te acalma dizendo que os porquês de tudo saberemos um dia, descobrir quem realmente é seu amigo, descobrir com quem você realmente pode contar, ver que seus familiares são mais que simples familiares, são extremamente humanos, amáveis, queridos, preocupados. Descobrir que um abraço amigo vale mais do que um milhão de palavras. Descobrir que o médico é humano. Descobrir que uma equipe médica pode se tornar uma equipe de anjos guardiões. Descobrir que fisioterapeutas, fonoaudiólogas, enfermeiras não dão apenas injeções, mas que chamam o seu filho de filho, que sempre tem uma palavra de força e de carinho e que estão prontas para qualquer queda, seja dos nossos filhinhos ou nossa mesmo.

Além de tudo isso, faz parte da aventura, e é esse o motivo de passar a minha história, a dificuldade de retirar do próprio seio a fonte da vida leite humano e também a dificuldade de conseguir nos bancos de leite humano esse néctar tão precioso para bebês que, de tão pequenos, não podem aceitar nenhum outro tipo de leite de fórmula.
Dizem que para você poder amamentar, deve estar bem tranquila e também que o estímulo do sugar do bebê ajuda muito. Essas são duas coisas que a mamãe de UTI não tem. Tantos sentimentos reunidos não tornam a vida tranquila e o bebê muito pequeno não sabe sugar.

Quando vou buscar leite humano de banco, deparo com uma dificuldade que não fazia parte da minha rotina às vezes falta o estoque de leite materno, pois as doações ainda não são suficientes para atender à demanda de bebês necessitados, sejam os de UTI, que ainda mamam através de sonda, sejam os que já podem sugar a mamadeira.
É difícil a mamãe conseguir tranquilizar-se se não sabe se amanhã dará conta de produzir o leite necessário e, em não conseguindo produzir, poderá contar com o banco de leite.

É por todos esses motivos que escrevo, para sensibilizar mamães que podem doar, para sensibilizar parentes de mamães que podem explicar a elas que elas também podem doar.

Não é difícil, não dá sequer grandes trabalhos. Normalmente os hospitais disponibilizam carro e funcionário para buscar o leite congelado na casa da doadora. Não há grandes segredos, basta uma boa higienização da mama, das mãos, do vidro e uma força enorme e carinho em caridade para que esse ato possa ser feito.

O primeiro passo eu posso até soprar: os hospitais que aceitam doação são: Santa Casa (com o telefone do banco  3322-4174) o Hospital Universitário (3345-3027) e a Maternidade Cândido Mariano (3042-9994). Em todos esses hospitais você encontra panfletos que vão te dizer quem pode doar, quais as técnicas para a retirada do leite e como conservar esse leite e, muito mais que panfletos, você encontra seres humanos, humanos de verdade, que vão lhe ensinar o caridoso ato de ordenhar e doar.

Viviane Amendola da Motta Krawiec, no momento mãe. (viamendola@hotmail.com)

Leia Também