Segunda, 20 de Novembro de 2017

Lei das sacolas plásticas

26 ABR 2010Por 22h:07
Ao vetar o projeto de lei que proíbe, aos poucos, que os supermercados entreguem ao consumidor as compras em sacolas plásticas, o governador André Puccinelli guilhotinou, no nascedouro, uma ideia que poderia ser o início de um espiral do bem.
Esta é a notícia ruim. A boa é que o Projeto de Lei 195/2009 voltou para a Assembleia Legislativa e os deputados terão a oportunidade de reverter, nos próximos dias, a decisão do chefe do Executivo. Sem ideologia, lobby ou politicagem, este seria o caminho natural e moderno de encarar e resolver o problema: dar um fim às sacolas plásticas.  

Algumas leis que agora fazem parte do dia a dia foram rechaçadas por muitos antes de entrar em vigor. Uma delas é a do uso obrigatório do cinto de segurança nos carros. Teve gente que ameaçou entrar na Justiça para ter o direito de andar sem o equipamento, alegando que a vida era dele e que ninguém tinha nada com isso.

Hoje, colocar o cinto é uma prática que chega a ser automática antes de dar a partida no automóvel. Em pouco tempo será lei que todos os carros tenham airbag, as bolsas de ar internas que inflam em frações de segundo evitando maiores traumas em casos de acidentes. Isso é espiral do bem: uma boa ideia leva à outra, que leva à outra boa ideia e assim por diante.

Com o cigarro a lógica é a mesma. Muita gente reclamou quando proibiram fumar nos aviões. A proposta desceu do céu e foi se espalhando nas salas de aula, nos coletivos urbanos e interestaduais, nos restaurantes, nos clubes, nas repartições públicas.
Ao fumante cabe-lhe o direito de se matar ao ar livre, se assim quiser fazer. Na década de cinquenta todo galã de cinema tinha que ter bigodinho ralo e um cigarro entre os dedos. Agora é raro assistir a um filme que apareça alguém fumando.

Isso é espiral do bem. É o que os acadêmicos chamam de mudança de paradigma: uma prática moderna toma lugar de algo ultrapassado e nocivo, como são ultrapassados e nocivos os sacos plásticos distribuídos a rodo nos supermercados.    
Levar para casa as compras em sacolas ou carrinhos semelhantes às que nossas avós e mães usavam nas feiras-livres seria retirar do passado uma prática que protegeria o futuro do mal que o plástico causa quando em contato com meio ambiente. 

Algumas propostas de lei deveriam ser despolitizadas e levadas em conta pelo seu conteúdo e esta, de um deputado da oposição, é uma delas.
É inegável e indiscutível o bem que esta lei faria para o meio ambiente de Mato Grosso do Sul e para Campo Grande, uma cidade imersa em problemas crônicos de saúde que têm origem, justamente, na falta de consciência ecológica.

Por falta de consciência ecológica Campo Grande não recicla lixo. Pelo mesmo motivo as calçadas, em especial às da Rua 14 de Julho, são abarrotadas de panfletos que muitos deixam de colocar no lixo para jogar no chão. O mesmo se vê nos parques da cidade.  
O lixo, por sua vez, ao ser coletado, é levado para um lixão que é ou deveria ser a maior vergonha ambiental da capital, um lugar que até animais mortos são jogados, contrariando o básico da boa conduta sanitária. Isso sem falar dos catadores, os esquecidos da sorte que dali ganham seu sustento.  
Por falta de consciência ecológica Campo Grande é a capital brasileira da dengue, beirando o caos e os 35 mil casos registrados nos últimos meses na cidade, com mais de uma dezena de mortes causadas pelo Aedes aegypti. Pior: sem previsão de acabar. 

Por falta de consciência ecológica os terrenos sujos e baldios da cidade estão repletos de caramujos africanos, ratos, mosquitos, moscas, escorpiões, cobras, aranhas e bichos peçonhentos que poderiam não existir se mudássemos a maneira de nos relacionar com a natureza, com o consumo, com o meio ambiente, com o próximo.

O planeta está agonizando e isso não é retórica ecológica. É preciso que cada um pense o que pode fazer para melhorar a qualidade de vida e colocar em prática.
A decisão sobre o uso indiscriminado das sacolas plásticas por aqui está nas mãos dos deputados estaduais de Mato Grosso do Sul, parlamentares que foram eleitos para defender os reais interesses da sociedade civil.  A natureza não aceita demagogia.

PAULO RENATO COELHO NETTO, jornalista, pós-graduado em Marketing. É autor do livro “Mato Grosso do Sul”.

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