Encontrada desmaiada em sua casa pelo filho Vicente, que retornava de uma pescaria, a índia guató Julia Caetano, 110 anos, foi resgatada por uma rede de proteção ao Pantanal, formada pelo segundo e terceiro setores, e conseguiu sobreviver depois de ser atendida no Hospital de Caridade, em Corumbá. Ela recebe alta hoje e volta para casa.
Julia e o filho, de 66 anos, são os remanescentes puros da tribo dos chamados Canoeiros do Pantanal – os únicos que ainda falam o dialeto, ameaçado de extinção. Mãe e filho se recusaram retornar à Ilha Ínsua, área reconhecida em 1996 como da tribo expulsa das terras em meados do século 20, e vivem isolados às margens do Rio Cuiabá.
Na segunda-feira (25), enquanto Vicente foi pescar logo de manhã, dona Julia ficou na casa. Companheira do filho nas pescarias e caçadas, ela está cega e não consegue mais andar. Houve um princípio de incêndio, ocasionado por um pedaço de madeira que caiu do fogão, e sem saber o que estava ocorrendo a índia sofreu queimaduras pelo corpo e perdeu os sentidos.
Vicente buscou socorro e encontrou apoio no Parque Nacional do Pantanal, sua sede fica próxima ao local onde mora. O chefe da unidade, José Augusto Ferraz, socorreu dona Julia, enviando-a de barco para Corumbá. A região não tem comunicação e com muita dificuldade foi feito um contato com a cidade avisando do acontecido.
Reencontro
O encaminhamento da índia para o hospital foi providenciado pela Ong Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que participa da rede de proteção com gestora da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Eliezer Batista, do grupo EBX, situada na Serra do Amolar. A rede é um sistema compartilhado que une outras RPPNs e o Parque Nacional do Pantanal, um corredor ecológico de 275 mil hectares.
A recuperação da índia centenária foi rápida, surpreendendo os médicos que a atenderam. Ela foi sedada, pois estava arredia, chamando sempre pelo filho em sua língua-mãe. Dona Julia ouve pouco e não fala o português. Na terça-feira (26), o IHP providenciou a vinda do filho, que foi trazido de avião. Fazia mais de 30 anos que Vicente não vinha à cidade.
"Não conheço mais nada, nem sei pra que lado fica o rio (Paraguai)", disse ele ao Correio do Estado. "Tô meio perdido". Vicente lembra, no entanto, dos tempos de moço, quando trabalhou nas chalanas que levam mantimentos para as comunidades fixadas na beira dos rios pantaneiros. Lembrou também do moinho de trigo, que fechou nos anos 70.
O retorno
Vicente encontrou a mãe muito bem de saúde, com roupa nova, cabelos e unhas cortados, mas pedindo para ir para casa. Segundo os médicos que a atenderam, dona Julia sofreu intoxicação, devido à fumaça, e também desidratada. Ela não aceitou fralda e nem soro, mas se alimentou bem. Ela nasceu no dia 20 de janeiro de 1901 e seu nome em guató significa "flor do mato".
Depois do susto, dona Julia e o filho retornam hoje, de barco, para a sua morada, onde vivem ao lado de gatos e cachorros e à custa de doações da rede de proteção do Pantanal e dos turistas. Vicente disse que há mais de um ano não recebe a cesta básica da Funai. O mantimento é entregue à liderança da tribo guató, porém não chega. "A gente vive da lavoura e da pesca", diz.

