Quinta, 23 de Novembro de 2017

Imoralidade oficializada

6 JUL 2010Por 07h:34
Oficialmente, a cam-panha eleitoral começou ontem, mas as maratonas por busca de votos estão na rua há semanas. Reportagem publicada no domingo pelo Correio do Estado revela que o governador André Puccinelli, quase sempre acompanhado por significativo número de deputados-candidatos, percorreu em torno de 12 mil quilômetros para participar de eventos oficiais em 36 das 78 cidades do Estado, correria sem precedentes ao longo dos pouco mais de três anos de Governo. É distância suficiente para percorrer do extremo sul ao extremo norte do País, voltar e ainda fazer alguns passeios paralelos. Tudo foi bancado com recursos públicos. Quase a metade dos eventos foi para lançamento de obras, as quais só Deus sabe se sairão do papel. Os dados foram obtidos da agenda oficial e, embora não haja levantamento semelhante, em maio já ocorrera maratona semelhante.
            Em princípio, tudo aconteceu dentro da legalidade, tanto que nenhum oposicionista deu um único pio para reclamar ou denunciar dessa peregrinação. O próprio candidato da oposição, José Orcírio, falou publicamente que sabe que terá tarefa difícil pela frente, pois enfrentará um concorrente que está com a máquina na mão. Confessou, inclusive, que sabe como isso funciona, pois já participou de uma campanha nesta condição, quando foi reeleito e derrotou a tucana Marisa Serrano, há oito anos. Quer dizer, admitiu já ter feito algo parecido com aquilo que aconteceu nas últimas semanas. Ministério Público e Justiça Eleitoral, que têm acesso à agenda oficial, também entendem que tudo acontece dentro da legalidade, pois nenhuma medida foi adotada para coibir as idas e vindas com o avião Bandeirante doado pela Força Aérea Brasileira, cuja hora de voo custa pelo menos R$ 3,5 mil.
            Qualquer político precisa ter preservado o direito de colher os dividendos, inclusive eleitorais, das obras ou investimentos que viabilizou para determinada comunidade. Porém, se até mesmo eles admitem que usam a máquina a ponto de desequilibrar a disputa, algo errado acontece. A agenda lotada para participar de inaugurações e lançamentos às vésperas do período de campanha pode até ser legal. Ninguém há de contestar, contudo, que é e sempre foi algo completamente imoral. Só porque todos utilizam esta artimanha não significa que deva ser aceita passivamente, embora todos saibam que até mesmo a agenda particular dos políticos seja bancada com recursos públicos, pois ninguém, em sã consciência seria tolo ao ponto de investir algumas dezenas de milhões de reais na disputa de um cargo que só renderá um décimo, ou menos, daquilo que foi investido.
            Ou seja, tudo faz parte de um grande jogo de faz de conta. Os candidatos adotam certas medidas para dizer que cumprem a legislação e os responsáveis pela fiscalização, idem. Exceto em raras exceções, quem pode mais chora menos. Esta é, verdadeiramente, a única regra que rege este jogo.

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