Segunda, 20 de Novembro de 2017

Iludidas, famílias sonham com pedaço de chão

6 MAI 2010Por 06h:49
bruno grubertt

Vindos do Paraguai, expulsos de suas terras por grupos de campesinos daquele país, os brasiguaios acampados às margens da BR-163, em Itaquiraí, ainda terão de enfrentar um longo caminho antes de instalarem-se em terras cedidas pelo Governo federal. Os recém-chegados precisam cadastrar-se no Programa Nacional de Reforma Agrária, isso se enquadrarem no perfil estabelecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Nessa lista, só em Mato Grosso do Sul, já existem 13,4 mil famílias.

A vida deles ficava a cada dia mais difícil no Paraguai, onde estavam havia, pelo menos, 30 anos, plantando e sobrevivendo do que a terra lhes oferecia. De cinco anos para cá, a “nacionalização” pregada pelo povo paraguaio fez com que grupos armados invadissem terras de brasiguaios e os encurralassem de tal forma que fossem obrigados a deixar o país. A solução encontrada por muitos foi seguir as indicações de um grupo de brasileiros que os apresentou a uma forma de conseguir novas terras, agora, no Brasil – O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

Gervásio da Silva, de 31 anos, nascido no Paraná, morava com os pais e os 11 irmãos no Paraguai. Todos eles sofreram a pressão dos campesinos paraguaios. “Eles chegaram até a invadir a casa armados quando eu estava trabalhando”, conta. “Eu pegava as crianças e corria para o mato, com medo”, lembra a esposa de Gervásio, Yanice, de 26 anos. Após assistir a uma palestra do MST no Paraguai, eles resolveram fugir do medo enfrentado diariamente e integrar o grupo que seguiria para o Brasil e foram parar no acampamento, em Itaquiraí, junto com outros 10 irmãos de Gervásio – apenas uma delas ainda está nas terras paraguaias. “Aqui está bem melhor. Pelo menos eu tenho tranquilidade e um dia vou conseguir uma terra de novo. Porque tem que ser no campo. Como eu vou pra cidade se não tenho estudo e não sei fazer nada na cidade?”, lamentou.

Ele e a família ainda devem aguardar um bom tempo nas atuais condições, visto que existe um longo processo pelo qual precisam passar antes de ser assentados. De acordo com o próprio MST, atualmente ainda existem cerca de 25 mil famílias sem terra acampadas no Estado, à espera de lotes de terra. O número, no entanto, não contabiliza os recém-chegados.

Dificuldades
Ele e todos os outros brasiguaios vivem, atualmente, ao lado de outros acampados brasileiros, que se instalaram na região em setembro do ano passado. “Vim de lá com R$ 600 e um pouco de comida, que trouxe num caminhão. O dinheiro já acabou e a comida também está no fim”, contou Gervásio, de dentro do barraco de lona com mais ou menos seis metros quadrados que divide com os filhos e a esposa.

De acordo com o ouvidor agrário do Incra, Sidney Ferreira, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), o instituto cadastrou as famílias e a elas oferece cerca de 300 cestas de alimentos. Essas cestas, de acordo com o que explicaram os acampados, chegam de três em três meses e são distribuídas entre todos eles, independentemente de estarem ou não cadastrados. “Nos próximos dias, vamos fazer outro cadastro”, informou Sidney. Segundo ele, no último “censo” feito em março, apareciam 302 famílias. O número, conforme ressaltou, está aumentando devido ao constante “ciclo migratório”.

De acordo com o Incra, cada pedido de terra feito pelo cadastro nacional é analisado individualmente. O órgão ainda não tem posição com relação aos acampados em Itaquiraí. Enquanto isso, o MST organiza o acampamento e registra os novos moradores.

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