As histórias foram construídas paralelamente, como as vendas diárias. Marisângela conta que já chegou a vender 500 exemplares de jornal por dia. “Há 22 anos, quando comecei, as vendas eram muito boas. Mas senti muito com a chegada da Internet. Hoje vendo uma média de 60 jornais/dia”, contabiliza.
Com uma filha de 34 anos, Marisângela percebeu que com o uso das redes sociais e as notícias a um clique, precisava aumentar a renda familiar. “Sempre vendi verduras... uma coisa aqui, outra lá. Mas agora não tem como, tenho que vender roupas para ajudar no orçamento, fazer uns trocados a mais”, revela.
Nas duas décadas de vendas a jornaleira já comprou uma casa no Bairro Marcos Roberto, além do carro, que já virou referência para os fregueses. “Costumo abrir meu ponto por volta das 04h30min, mas quando chego antes, meus clientes vêem o carro e já sabem que estou lá. Aviso que não é para eles prestarem atenção no carro e sim nas notícias do jornal”, explica aos risos.

Evando conta orgulhoso o que já comprou com o dinheiro do trabalho de 11 anos. “Comprei um fogão para minha mãe, um aparelho de som para mim e agora pago a tv a cabo, tudo com o dinheiro das vendas”, enumera.
Ele, que não tem acesso à Internet, não sente muito a chegada das novas tecnologias, mas lembra que o ano passado foi o pior em vendas. “Sempre passei o fim do ano bem, mas ano passado não foi muito bom, não sei o que aconteceu”, conta.
De acordo com ele, que já foi office-boy, vendedor e hoje ainda trabalha com materiais recicláveis, a venda de jornal foi uma oportunidade que surgiu e que até hoje rende frutos. “Já tenho meus clientes fixos, mas um vai indicando ao outro e as vendas aumentam... Este final de semana mesmo tenho cliente novo para visitar”, disse com um tom de esperança.
“Meus fregueses só param de ler jornal quando morrem. Tem gente que disse que até vai parar de comprar, com medo de morrer cedo. Dou risada, mas tenho clientes que saíram de Campo Grande, passaram anos fora e quando voltaram, viram que estava no mesmo ponto e voltaram a ser fieis”, conta Marisângela ao lembrar as histórias vividas na Júlio de Castilhos.
Fotos: Valdenir Rezende e Bruno Henrique/Correio do Estado

