Quarta, 22 de Novembro de 2017

Grupo Rede busca sócio para reduzir dívida

1 AGO 2010Por 21h:17
Vera Halfen com (AE)

Até pouco tempo atrás, tido como um dos principais ativos a serem consolidados no setor elétrico brasileiro, o Grupo Rede está passando por um intenso processo de reestruturação, que deve culminar no ingresso de um novo sócio estratégico e numa oferta de ações. Os planos da empresa incluem a redução do alto nível de endividamento, a recuperação do desempenho operacional das subsidiárias e o aperfeiçoamento dos instrumentos de governança corporativa. “Queremos figurar entre as companhias mais rentáveis do setor elétrico”, revela a diretora-presidente do Grupo Rede, Carmem Campos Pereira, em entrevista à Agência Estado.
No ano passado, a Enersul – que faz parte do Grupo Rede – foi supostamente avaliada por um grupo de executivos da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais), que permaneceram em Campo Grande por alguns dias. A afirmação sobre a venda da concessionária foi dada em entrevista pelo deputado Marquinhos Trad. Na época, a diretoria da Enersul negou qualquer tipo de negociação e atribuiu como “visita” a permanência dos executivos na empresa.
A injeção de R$ 600 milhões do FI-FGTS, anunciada ao final de junho, é peça fundamental no processo de recuperação do grupo, iniciado em 2009 com o programa “Evoluir”, voltado à modernização da gestão e dos processos internos. Boa parte dos recursos, cerca de R$ 530 milhões, será aplicada para financiar os investimentos previstos até 2014 na concessionária Celpa (PA), que totalizam R$ 3,5 bilhões. O maior volume dos aportes, R$ 1,2 bilhão, será focado na melhoria da qualidade do serviço, tendo em vista que a empresa tem um dos piores índices de qualidade do fornecimento do País e descumpre as metas fixadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
“O nosso plano de investimentos no Pará visa à melhoria da qualidade, a redução das perdas da rede e a aceleração da universalização do serviço”, resume a executiva. Além de gerenciar esse alto volume de investimento, outro desafio do executivo será o de convencer a Aneel de que as metas de qualidade do serviço fixadas para a Celpa são exageradas, tarefa difícil considerando que a distribuidora irá passar em 2011 pelo terceiro ciclo de revisão tarifária.
“Se olharmos para outras empresas similares à Celpa, as metas exigidas pelo regulador são bem diferentes. Não sabemos o motivo de as nossas metas serem tão rigorosas”, afirma Carmem. Do ponto de vista financeiro, o Grupo Rede prevê entrar com R$ 613 milhões (valor que inclui os R$ 530 milhões do FI-FGTS) para cumprir o plano de investimentos da Celpa. Os outros R$ 2,9 bilhões serão financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), pelo Banco da Amazônia (Basa), pelo governo do Pará e pelos fundos setoriais Reserva Global de Reversão (RGR) e Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
Com o plano de recuperação operacional estruturado, o Grupo Rede concentra seu esforço em melhorar a sua estrutura de capital. A companhia está entre as mais alavancadas do setor elétrico, apresentando uma relação dívida líquida/Ebitda de 3,7 vezes ao final de março deste ano, patamar alto para um setor que trabalha com um nível de alavancagem entre 1,5 vez e 2 vezes. “Para o nosso tipo de concessão, que ainda demanda pesados investimentos, uma relação dívida líquida/Ebitda mais adequada seria de 2,5 vezes”, explica a executiva. Ao final do primeiro trimestre de 2010, a dívida líquida consolidada do grupo estava em R$ 4,3 bilhões.
Para cumprir essa meta, o Grupo Rede busca uma nova capitalização, cujo montante seria um pouco superior aos R$ 600 milhões injetados pelo FI-FGTS. “Isso pode ser ou através de um novo sócio estratégico ou por meio de uma oferta de ações”, revela. Dada a instabilidade no mercado, é pouco provável que a companhia realize uma oferta de ações no curto prazo, o que fortalece a ideia do ingresso de um novo sócio. Carmem afirma, inclusive, que a empresa tem conversado com todo tipo de investidor neste momento. “O grupo é, de fato, muito assediado”, diz a executiva, ressaltando que o novo parceiro deve ter o perfil de investidor de longo prazo.
Com essas ações, o Grupo Rede planeja alcançar a redução de seu endividamento até o final de 2011. “Queremos estar de cara nova até o final do ano que vem. Se fosse possível, até o final deste ano. Mas isso dependeria do apetite do mercado”, afirma Carmem. A executiva deixa claro que se a nova capitalização não ocorrer este ano, a companhia não terá problemas para atender aos compromissos imediatos. “Não estamos com a faca no pescoço. Somos alavancados, mas o curto prazo não nos preocupa”, garante a diretora-presidente, descartando a venda de ativos para acelerar a recuperação da saúde financeira da empresa.

Governança
O ingresso do FI-FGTS também representa uma nova etapa no processo de aperfeiçoamento das práticas de governança corporativa do Grupo Rede. O fundo terá quatro conselheiros de administração: dois na Empresa de Eletricidade Vale Paranapanema (EEVP), controlador do grupo; um na holding Rede Energia; e um conselheiro em qualquer uma das distribuidoras do grupo - no momento, a escolhida foi a Celpa. O FI-FGTS ainda deterá um cargo de diretoria na Rede Energia e terá participação nos comitês internos. O grupo ainda promoveu Maurício Halewicz, da área de controladoria, ao posto de diretor de Relações com Investidores, cargo exercido anteriormente por Carmem, e também criou o comitê de gestão, que trata de assuntos financeiros, operacionais, de mercado e de regulação.
Esse novo processo também representa a imposição de metas operacionais e financeiras a serem cumpridas pelos atuais administradores do Grupo Rede. A atual diretoria foi eleita para comandar a empresa até abril de 2011, e, nesse contexto, não é por acaso que Carmem afirma que os resultados do processo de reestruturação aparecerão em 2011.
Com 3,11% dos papéis em circulação no mercado, Carmem revela a intenção do grupo em ampliar o seu free float no médio prazo, o que explica a intenção de melhorar as práticas de governança corporativa. “Quando decidirmos no futuro pela oferta de ações, que é o caminho natural, esperamos que o investidor nos veja com outros olhos”, comenta a executiva. Para ingressar no Grupo Rede, o FI-FGTS adquiriu 35% de participação da EEVP, que detém 66,94% da Rede Energia.

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