Segunda, 20 de Novembro de 2017

Gastronomia pantaneira

11 ABR 2010Por 05h:12
Sílvio Andrade, Corumbá

Pitadas de criatividade na elaboração de novos pratos pantaneiros, alguns com influência da vizinha Bolívia, estão enriquecendo a culinária regional e abrindo portas para mulheres e homens que vivem na periferia de Corumbá e não tinham qualificação para absorção no mercado. A ousadia vai além: um quebra torto transformado em café com prosa, incluindo delícias salgadas, como saltenha e paçoca.

As inovações gastronômicas – já experimentou linguiça com pequi e arroz ou coquetel de pintado? – são resultados do primeiro curso de culinária para as famílias de baixa renda que residem nos bairros contemplados com obras de saneamento e asfalto do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). A qualificação profissional para gerar renda faz parte do cronograma de ações sociais do programa federal.

O curso realizado na cozinha industrial da Vila do Conhecimento, núcleo da escola de artes Moinho Cultural Sul-Americano, com a participação de 40 pessoas, transformou-se em um novo experimento, estimulando a criação de novos pratos, alguns já enriquecendo o cardápio de restaurantes da cidade. Ao todo, foram 42 novas receitas, durante 40 dias de capacitação em manuseio de alimentos e bebidas.

Os pratos foram elaborados à base de carne de peixe, frango e boi, explorando ingredientes da culinária boliviana, como a batata dos Andes. O resultado foi surpreendente e alguns “chefs” estão entrando para a cooperativa gastronômica do Moinho Cultural, hoje formada por 15 mães de alunos da escola. O curso é também uma referência para os restaurantes que estão abrindo vagas e reformulando seus cardápios.

“Sou corumbaense, mas pouco sabia da nossa culinária. O curso abriu horizontes, revelou-me uma opção de renda”, afirma Isabela Lima, 23, que criou o filé de pintado grelhado com creme de bocaiuva e o pudim de bocaiuva. “Quero continuar me aprimorando”, completa, de olho em uma vaga na cooperativa do Moinho. Seu prato fez sucesso no final do curso, onde foram apresentadas 16 novas receitas.

Resgate
Para a cuiabana Ana Leoniza Oliveira, 37 anos, a capacitação foi a oportunidade que nunca teve – morando há 20 anos na cidade – para se reciclar. Ela vende marmita nas feiras livres e agora sonha em melhorar sua renda agregando pratos mais elaborados. A supervisora do curso, Lídia Leite, coordenadora de gastronomia da Vila do Conhecimento, deu dicas e asas à criatividade da turma e se surpreendeu com o resultado.

“Eu disse: vocês criam e eu experimento”, comentou Lidia, especialista em gastronomia regional. “O curso também busca resgatar a nossa identidade e cria novas opções no preparo da mesa. Temos o café com prosa, valorizando coisas da terra como a saltenha, o bolo de fubá com goiabada, o bolo de arroz e a sopa paraguaia, que pode ser um quebra torto diferente para paladares mais exigentes”, acrescentou.

Livro
Dentre os novos pratos, inclui-se o majadito (típico do oriente boliviano) reformulado com carne seca, e o frango picante (com batata andina). Vale a pena saborear também a moranga com carne seca, moqueca de peixe, crepe pantaneiro e o peixe ao molho branco com banana. As novas receitas serão reunidas em um livro a ser editado pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), gestor do Moinho Cultural, ainda este ano.

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