Sexta, 24 de Novembro de 2017

GAGUEIRA

15 ABR 2010Por 03h:16
OSCAR ROCHA

É difícil acreditar. Atores como Malvino Salvador, Murilo Benício, Bruce Willis e até o prêmio Nobel de Literatura, o escritor português José Saramago, sofreram,  em algum momento de suas vidas, de um distúrbio que muitos têm e que, em alguns casos, acarretam transtornos sociais graves. No caso deles, cada um a seu modo, conseguiram conviver com o transtorno. Todos apresentaram disfunção na fala, que pode ser traduzida popularmente como gagueira. Não foi algo momentâneo, fez parte da  rotina deles durante algum tempo, sendo que há aqueles que até hoje apresentam resquícios do período mais intenso.

“O meu problema foi, e continua a ser, a gagueira. Aqueles que gozam da sorte de uma palavra solta, de uma frase fluida, não podem imaginar o sofrimento dos outros; esses, que no mesmo instante em que abrem a boca para falar já sabem que irão ser objeto da estranheza ou, pior ainda, do riso do interlocutor. Com a passagem do tempo acabei por criar, sem ajuda, pequenos truques de elocução, usar os bloqueios leves como pausas propositadas, perceber com antecipação a sílaba na qual iria ter dificuldades e mudar a construção da frase, etc. Curiosamente, se tiver de falar para cinco mil pessoas estarei mais à vontade do que a falar com uma só. Salvo em situações de extremo cansaço nervoso, hoje sou capaz de controlar adequadamente o meu débito verbal. A gagueira, no meu caso, passou a ser uma pálida sombra do que foi na infância e na adolescência. Aprendi à minha própria custa”, lembrou numa entrevista, há alguns anos, o escritor José Saramago.

“A sociedade, de um modo geral, trata muito mal a pessoa que apresenta gagueira, faz isso o tempo todo, seja na escola ou no trabalho. Com isso, a vida social de quem apresenta o problema é muito complicada”, enfatiza a fonoaudióloga Ana Faride Camargo que, juntamente com a fonoaudióloga Joana Ribeiro, promoverá na última  terça-feira do mês, às 19h30min, na Igreja Sagrado Coração de Jesus (Avenida Mato Grosso, 3.280), a reunião temática “Discutindo a gagueira”, com participação gratuita.

No Brasil, segundo estimativa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Fluência, que busca esclarecer questões referentes ao assunto, e da qual Ana Faride é representante em Mato Grosso do Sul, a incidência da gagueira é de 5% da população brasileira, ou seja, mais de 9 milhões de brasileiros enfrentam o problema momentaneamente e 2 milhões de forma crônica.

Em Mato Grosso do Sul  não há levantamento sobre o assunto, mas os profissionais da área apontam o grande número de pessoas que têm dificuldade em falar com fluência e que procuram os consultórios. “Atendemos muitos nessa condição. A gagueira é muito subjetiva, não tem uma causa única, mas grande parte é de fundo emocional”, aponta a fonoaudióloga Klenia Lima Armoa de Deus.

Infância
Um momento decisivo, em muitos casos, para o surgimento ou agravamento do problema é a infância, principalmente no período dos 3 aos 5 anos. É a fase na qual, normalmente, a criança apresenta disfluência da fala. “Ela pensa mais rápido do que fala. Não consegue se expressar de forma correta. O problema é que, com a inexperiência de muitos pais e responsáveis, que acham necessário corrigir a criança e forçá-la a falar de forma correta, muitas vezes, aquela que tem certa tendência à gagueira acaba tendo seu problema agravado”, enfatiza Klenia.
As correções impostas às crianças podem ampliar o nervosismo e a ansiedade, elementos que integram a gagueira. Ana Faride aponta que grande parte das crianças consegue ultrapassar a fase da gagueira considerada normal nos primeiros anos de vida, mas cerca de 20% apresentam sintomas depois dessa fase, efetivando-se o problema.

Klenia explica que a gagueira não tem cura, mas que é possível “driblá-la”. Quanto antes o problema for detectado, o tratamento será mais eficiente. “Normalmente, os adultos que apresentam o problema trazem hábitos que são difíceis de tirar, como tiques nervosos ou bater os pés; o processo é mais complicado do que quando comparado com o de uma criança. Um aliado importante na etapa de detectar o problema é o professor, que tem contato direto com a criança. Este profissional pode auxiliar os pais indicando o aparecimento do problema não somente da gagueira, mas  da rouquidão”, aponta a fonoaudióloga.

A gagueira pode ter reflexo no desempenho do aluno em sala de aula. “O aluno com problema pode ter má fala e também escrever de forma errada”, prossegue a especialista.

Atualmente, pesquisas começam a demonstrar que a gagueira também pode ter outras origens, não somente de fundo emocional. “Como as causas são multifatoriais, muitas vezes é complexa a determinação de um fator. Por exemplo, há estudos mostrando aspectos genéticos como decisivos para a existência da gagueira”, aponta Ana Faride.

Dificuldade
Segundo material de divulgação do Instituto Brasileiro da Fluência, o problema central da gagueira consiste em uma dificuldade do cérebro de sinalizar o término de um som ou uma sílaba e passar para o próximo. Desta forma, a pessoa consegue iniciar a palavra, mas fica “presa” em algum som ou sílaba (geralmente o primeiro) até que o cérebro consiga gerar o comando necessário para dar prosseguimento com o restante da palavra.
Acredita-se que as estruturas cerebrais envolvidas com a gagueira sejam os núcleos da base, os quais estão envolvidos com a automatização de tarefas (dirigir, calcular, escrever, falar, etc.). Portanto, a dificuldade central na gagueira estaria em uma automatização deficiente dos movimentos de fala.
Ana Faride explica que as reuniões mensais do “Discutindo a gagueira” apresenta os principais estudos que estão sendo feitos no momento sobre a questão. “Não é uma reunião terapêutica. Repassamos informações e conversamos com as pessoas que apresentam o problema”. Mais informações sobre o projeto podem ser obtidas pelos telefones 3327-2923 e 3327-1480.

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