Domingo, 19 de Novembro de 2017

Fungos & Papoulas

28 MAI 2010Por 06h:18
Notícia veiculada recentemente pelo New York Times (13/05/2010), e posteriormente espraiada para o resto do mundo, inclusive no Brasil, revela que no segundo trimestre deste ano, uma praga agrícola misteriosa – provavelmente um fungo – dizimou cerca de 30% da safra de papoulas no sul do Afeganistão. A notícia não teria maior repercussão se não fosse um “pequeno detalhe”: aquele país do Oriente Médio produz cerca de 90% do ópio no mundo, um derivado da papoula, cujo valor de colheita no ano passado foi estimado pela ONU em 2,8 bilhões de dólares! Com isso, os preços da heroína, a principal droga derivada do ópio, subiram 50% na região. Mas há também outro fator que talvez justifique o interesse mundial pela matéria: trata-se de uma região essencialmente dominada pela insurgência Taleban, contrária à ocupação do país pelas tropas da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e capitaneadas pelos EUA.

De um lado, dizem os representantes da ONU, que se trata de uma estratégia do Taleban para convencer os agricultores locais de que foram as tropas ocidentais que introduziram o tal “fungo assassino” que destruiu grande parte das plantações de papoula. Mas as forças armadas norte-americanas dizem que a erradicação da papoula seria contraproducente no atual esforço de conquistar o apoio dos afegãos, negam enfaticamente qualquer envolvimento no caso e afirmam que a “doença se desenvolveu naturalmente”. Por outro lado, além de alimentar a guerra de propaganda, a praga pode também ajudar os insurgentes ao promover uma alta no preço da papoula. É que a produção reduzida está causando alta de até 60% no preço do ópio fresco, depois de anos de quedas de preços, conforme Antonio Maria Costa, diretor executivo do Serviço de Combate a Drogas e Crime da ONU. (Estadão On-line, 13/05/2010).

Mas a hipótese de que sejam as tropas da OTAN responsáveis pela disseminação da praga do fungo nas plantações de papoula no Afeganistão não é de todo descabida. É que já em outubro de 2000, reportagem publicada pela BBC revelava que países ocidentais – leia-se EUA e Grã-Bretanha – financiavam pesquisas para desenvolver um fungo capaz de atacar plantações de papoula naquele país. Na ocasião, o problema seria a segurança para se desenvolver um agente patogênico desse tipo, bem como a legalidade da invasão do território afegão para promover tal infestação. (Robert Berlinck/Blog Quiprona/13/05/2010). Isso, no entanto, parece que foi suplantado. 

 Em matéria publicada pela Biotec/AHG (09/05/2006), Marcos Siqueira diz que o bioterrorismo ganhou maior notoriedade após os ataques às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, EUA, em 11/09/2001. Revela que o agroterrorismo não é recente, pois na Primeira Guerra Mundial o exército alemão utilizou o Bacillus anthracis, agente causal do Antraz, para contaminar cavalos e mulas na Mesopotâmia e França! Diz ainda que os Governos Britânico, Americano e as Nações Unidas investiram 1,3 milhão de dólares para desenvolver um fungo que matasse as papoulas do ópio em plantações afegãs como uma arma biológica, sem ameaçar outras plantas e animais. E tudo indica que esse intento foi atingido no Uzbequistão, país vizinho ao Afeganistão: pesquisadores americanos e ingleses desenvolveram um fungo – o Pleospora papaveracea – capaz de destruir as principais variedades de papoulas incluídas no teste, sem afetar as cerca de 130 espécies de plantas parecidas com a papoula, o que do ponto de vista científico foi um sucesso!

Diante de todo esse imbróglio,envolvendo fungo, papoula e talebans no remoto Afeganistão, a pergunta que se faz,é:Será que existe algum significado político por trás de toda essa história? Mas para melhor entender isso,é preciso retornar um pouco no tempo.Em dezembro do ano passado, embora tenha estabelecido um prazo de meados de 2011 para começar a retirar as tropas americanas do Afeganistão, o presidente dos EUA, Barack Obama (Prêmio Nobel da Paz!?), ordenou o destacamento de mais 30 mil soldados para aquele país! E em recente visita-surpresa ao Afeganistão, Obama agradeceu ao povo afegão e às tropas americanas por seu sacrifício na guerra no Afeganistão, e prometeu impedir o regresso da milícia talibã ao poder no país. Ele afirmou ainda que está “absolutamente certo” de que os Estados Unidos vencerão os talibãs e a Al-Qaeda no Afeganistão. E acrescentou:“Com nossos aliados, venceremos”. (RedaçãoTerra,28/03/2010).

Por último, é bom lembrar do suposto atentado terrorista na Times Square, em Nova York, na tarde do dia 1º de maio de 2010, quando um carro-bomba estacionado e fumaçando foi desarmado pela polícia local. Logo em seguida foi preso o paquistanês naturalizado americano Faisal Shahzad, que admitiu estar ligado ao caso. O suspeito disse ainda ter sido treinado em campos terroristas no Paquistão e as autoridades americanas acreditam que grupos insurgentes ligados ao Taleban estejam envolvidos no episódio (Agência Estado,13/05/2010). O curioso nessa história, é que o camelô que detectou o sinal de fumaça vindo do carro Nissan Pathfinder estacionado junto ao meio-fio e avisou ao policial que passava, era o veterano de guerra do Vietnã, Lance Orton, que foi aclamado como herói e dias depois recebeu os cumprimentos do presidente Barack Obama por telefone. (Paulo Stockler/Coluna do Nassif, 03/05/2010). Não é muita coincidência?

Hermano de Melo, médico-veterinário, escritor e estudante de Jornalismo.

Leia Também