Domingo, 19 de Novembro de 2017

Suplemento Cultural

Frei Damião e Judas Iscariote

23 JAN 2010Por REGINALDO ALVES DE ARAÚJO08h:26
Era um trem de passageiro, um dos poucos que fazia o trajeto entre a capital João Pessoa e a pequenina Itabaiana. A estação ferroviária não cabia de gente. A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em peso, liderada pelo padre João Gomes da Costa, festejava a chegada de Frei Damião, o religioso santificador, o pregador que encantava multidões com seus sermões nas suas tradicionais Missões no nordeste brasileiro, especialmente no estado da Paraíba. Eu estava no meio do povo, com meus 11 anos, abrindo espaço para ver o santo quando o trem parou. O calendário apontava o dia 7 de dezembro de 1955. No vagão de primeira classe, dois frades ergueram a cabeça em meio a fraternais sorrisos e palmas. O mais velho, junto à janela, ainda conservava o breviário aberto, movia os lábios, rezando. Aquele é o santo, imaginei. De estatura baixa, desceu do vagão acompanhado do ajudante bem mais alto. Os seus pés calçavam sandálias de couro grosseiro, guarnecido de fivelas de metal – como as usadas pelas ordens menores do clero romano. Pertencente à Ordem de São Francisco de Assis (franciscano), ele trajava um hábito castanho, com capuz e cordão de lã branca como cinto. Ao pisar no chão cimentado da estação, foi saudado entusiasticamente pelo vigário local e, olhando para o povo, agradeceu-lhe a atenção com um gesto quase imperceptível de cabeça para, em seguida, fazer o sinal da cruz em direção à eufórica multidão. Caminhou, a pé, da estação até o pátio da Matriz de N.S. da Conceição, sem demonstrar cansaço. A pele, bem corada, recobria as suas feições simétricas de um dinâmico italiano, acentuavalhe a expressão dos olhos claros luminosos, um homem de impressiva aparência, com uma barba de tom grisalho, aparada com esmero. O frei mais moço, alto, de envergadura atlética, voltava os olhos para o santo, sempre atento a qualquer movimento para favorecê-lo. Alcançamos o pátio da Matriz quando o sol mergulhava rapidamente no poente. O santo parou, projetou os olhos no horizonte, soltou um leve sorriso de admiração, deliciando-se no espetáculo de inefável esplendor que, na minha imaginação, ele não conceberia mais fascinante no próprio Paraíso. Aquele pôr-do-sol ficou na história do lugar. O povo não perdia um só de seus movimentos, queria tocá-lo, almejava ouvi-lo. Ali mesmo, num púlpito improvisado, extravasou sua alegria com a voz de um tom grave, melodioso e agradável. – Deus está presente em muitos lugares, onde nem sequer se lhe ouve o nome – iniciou o breve sermão. A vossa manifestação de carinho em louvor ao Seu nome indica que ele habita em vosso coração... Falou fluentemente de um mundo melhor, baseando seu sermão nos textos dos profetas de Israel, cheio de fogo messiânico, ardente de esperança na libertação dos homens em demanda ao paraíso, prometido pelo Salvador. Eu bebia as suas palavras com devoção, e até hoje recordo frases inteiras daquele pronunciamento. No dia seguinte, dia de festa dedicada a N.S. da Conceição, padroeira do lugar, a paróquia enfeitou-se para o grande evento. O Frei Damião foi obviamente o destaque da comemoração, nas missas, nas quermesses e na gigantesca procissão. Tive o privilégio de ser confessado pelo santo e ter recebido de suas mãos a Hóstia Consagrada. Na última noite de festa, curioso, aproximei-me da sala sacerdotal. Frei Damião ouvia, com paciência, um figurão da cidade que dizia: “O senhor teria boas palavras para a alma danada de Judas?” Eu sentia uma alegria estranha. O silêncio penetravame cantando no coração. A voz do santo se fez ouvir: – Não devia dizer isso, meu filho; não façamos juízos precipitados. Não se deve dizer de ninguém que é uma alma perdida, porque o Senhor pode estar certo – continuou em tom grave – de que se Judas, naquele último e terrível momento em que se enforcou, se naquele momento, digo eu, antes de perder de todo a consciência, ele suspirou de pesar e arrependimento, eu lhe asseguro, meu filho, que esse suspiro foi ouvido no céu e que a primeira gota do sangue de Cristo foi vertida por Judas Iscariote. Ouvi barulho no pequeno corredor da sacristia e logo cuidei de ir para casa. A história de Judas me emocionou, pois, segundo Frei Damião, qualquer pecador poderá adquirir a Graça do Céu, é só se arrepender, dos mais cruentos pecados, no último segundo de vida. Desde criança essa mensagem me acompanha.

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