Uma das estruturas também apresenta alto potencial de dano em caso de rompimento; levantamento identifica seis barragens na Capital e revela coordenadas dos reservatórios
Seis barragens localizadas em Campo Grande foram classificadas pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) de acordo com o risco de acidente e o potencial de danos provocados por um eventual rompimento.
Entre as estruturas analisadas, duas receberam classificação de alto risco, sendo que uma delas também apresenta alto dano potencial associado, combinação que representa o cenário de maior atenção entre os reservatórios relacionados pelo órgão ambiental.
As informações constam em publicação do Imasul no Diário Oficial do Estado de quinta´feira (20). O levantamento apresenta dados sobre os responsáveis pelas estruturas, coordenadas geográficas, altura, capacidade de armazenamento e classificação atribuída a cada barragem.
A situação que mais chama atenção é a da barragem identificada pelo código DURH006948, sob responsabilidade de Ermelindo Ramalho de Carvalho. A estrutura possui dois metros de altura e capacidade aproximada para armazenar 16,3 mil metros cúbicos de água.
Ela foi enquadrada simultaneamente nas categorias de alto risco e alto dano potencial associado. As classificações, apesar de aparecerem lado a lado, medem situações diferentes. O risco está relacionado às características da própria barragem e às condições consideradas na avaliação de sua segurança.
Já o dano potencial associado leva em conta as consequências que um eventual rompimento poderia provocar na área atingida.
Por isso, receber classificação de alto dano potencial não significa que o rompimento seja iminente. O enquadramento indica que, caso ocorra uma falha, as consequências podem ser mais significativas para pessoas, propriedades, infraestrutura, atividades econômicas ou meio ambiente.
Coordenadas mostram localização das estruturas
A publicação do Imasul também apresenta as coordenadas geográficas das barragens, permitindo localizar com maior precisão os reservatórios na zona rural de Campo Grande.
A DURH006948, que reúne alto risco e alto dano potencial, aparece nas coordenadas 20°36'36,16"S e 54°22'23,84"W.
Ermelindo Ramalho de Carvalho também figura como responsável por outra barragem incluída no levantamento, a DURH006950, localizada nas coordenadas 20°36'09,54"S e 54°23'13,39"W. As duas estruturas, portanto, estão relativamente próximas.
Registros ambientais municipais também relacionam o nome de Ermelindo a atividade rural na região da Área de Proteção Ambiental (APA) do Guariroba, na zona rural de Campo Grande.
A presença de reservatórios em áreas rurais torna especialmente relevante a análise do que existe abaixo das estruturas, já que a classificação de dano potencial considera justamente as possíveis consequências de um acidente.
Outra barragem também aparece com alto risco
Uma segunda estrutura de Campo Grande recebeu classificação de alto risco. Cadastrada como DURH006532, a barragem está sob responsabilidade de Luciano Zamboni.
A estrutura possui 0,75 metro de altura e capacidade estimada para armazenar aproximadamente 11,5 mil metros cúbicos de água.
Diferentemente da DURH006948, porém, o potencial de dano associado dessa barragem foi enquadrado como médio.
As coordenadas divulgadas pelo Imasul situam a DURH006532 em 20°28'37,70"S e 54°22'33,36"W, na zona rural da Capital.
Documentos municipais também trazem informações sobre propriedades rurais vinculadas a Luciano Zamboni. O nome dele aparece entre proprietários de imóveis localizados na Sub-Bacia do Córrego Saltinho, em Campo Grande, associado a duas matrículas rurais que somam aproximadamente 1.862 hectares.
Outros registros consultados relacionam Zamboni às propriedades denominadas Fazenda Bom Jardim e Fazenda Tradição, também em Campo Grande.
As informações ajudam a contextualizar a presença dos responsáveis no meio rural da Capital, enquanto as coordenadas publicadas pelo Imasul indicam os pontos geográficos das estruturas classificadas pelo instituto.
Seis barragens aparecem na relação
Além das duas estruturas classificadas com alto risco, outras quatro barragens de Campo Grande aparecem no levantamento com baixo potencial de dano associado.
Uma delas é a DURH031238, de responsabilidade de Ciro Yonamin*. A barragem possui dois metros de altura e capacidade aproximada para 27,1 mil metros cúbicos de água.
O volume é superior, inclusive, ao armazenado pela DURH006948, que recebeu a classificação mais preocupante do levantamento. A diferença evidencia que a capacidade de armazenamento, isoladamente, não determina o nível de risco ou de dano atribuído a uma barragem.
Também integra a relação a DURH006950, novamente sob responsabilidade de Ermelindo Ramalho de Carvalho. A estrutura possui dois metros de altura e comporta pouco mais de mil metros cúbicos de água.
Outra barragem, identificada como DURH036866, está sob responsabilidade de Ione Serenza Marques. Ela possui 4,32 metros de altura e capacidade aproximada de seis mil metros cúbicos.
A lista é completada por uma estrutura vinculada à RLPC Agropecuária Ltda.. Na publicação consultada, não foram informados altura e volume de armazenamento desse reservatório.
Risco e dano não significam a mesma coisa
A existência das duas classificações é fundamental para compreender o levantamento. Uma barragem pode apresentar características que elevem sua categoria de risco sem necessariamente estar localizada em uma região onde um eventual rompimento provoque consequências de grande proporção.
O contrário também pode ocorrer. Uma estrutura pode apresentar elevado potencial de dano em razão do que existe a jusante, termo técnico utilizado para definir a região situada abaixo do reservatório e que pode receber o fluxo de água, mesmo que outros aspectos de sua avaliação sejam diferentes.
Entre os elementos que podem ser considerados na análise estão população, propriedades rurais, estradas, cursos d'água, infraestrutura, atividades econômicas e áreas ambientalmente sensíveis.
O próprio Imasul já utilizou esse tipo de análise em fiscalizações realizadas em outras regiões do Estado, observando não somente as condições das estruturas, mas também os elementos existentes nas áreas que poderiam ser afetadas em uma situação de emergência.
No caso das seis barragens de Campo Grande, as coordenadas permitem identificar onde estão os reservatórios.
O levantamento, porém, não detalha quais pontos seriam atingidos pela água em eventual rompimento nem apresenta ao público, na relação divulgada, uma mancha de inundação das estruturas.
A questão ganha maior relevância no caso da DURH006948, justamente por reunir as duas classificações mais elevadas: alto risco e alto dano potencial associado.
Classificação ainda pode ser revista
O enquadramento divulgado pelo Imasul não necessariamente será definitivo. Conforme as informações publicadas, a classificação poderá ser revista caso os responsáveis apresentem justificativas e documentação relacionadas ao atendimento das normas atualizadas de segurança e às condições das estruturas.
A segurança de barragens exige acompanhamento contínuo porque as condições podem sofrer alterações ao longo do tempo. Manutenção, conservação, documentação técnica e mudanças nas áreas localizadas abaixo dos reservatórios estão entre os fatores capazes de interferir nas avaliações.
O levantamento ganha ainda mais relevância diante do histórico recente de acidentes envolvendo barragens na região de Campo Grande.
Em 2024, o rompimento de uma estrutura no condomínio rural Nasa Park, no limite entre Campo Grande e Jaraguari, provocou uma enxurrada que atingiu propriedades próximas à BR-163 e causou prejuízos a moradores da região.
O episódio ainda produziu discussões posteriores relacionadas à responsabilização e ao ressarcimento dos danos.
Não há indicação de relação entre o episódio do Nasa Park e as estruturas agora classificadas pelo Imasul. O caso, entretanto, dimensiona as consequências que uma falha desse tipo pode provocar e reforça a importância da fiscalização preventiva.
Com duas estruturas classificadas como de alto risco e uma delas também enquadrada com alto potencial de dano, o levantamento coloca em evidência a situação das barragens existentes na zona rural de Campo Grande e a necessidade de acompanhamento das condições de segurança dos reservatórios.