Segunda, 20 de Novembro de 2017

Crônica TV

Força tecnológica

20 JAN 2010Por 04h:59
É comum entre os folhetins ambientados em São Paulo uma fotografia concentrada em concretos, além de uma trama ágil, remetendo à grande movimentação da capital paulista. E “Tempos modernos” não faz diferente. No horário das 19 horas, o autor Bosco Brasil aproveita o caos de uma das maiores cidades do mundo para brincar com os prejuízos trazidos por tamanho progresso. E é na discussão sobre os problemas da segurança das grandes cidades que a novela carrega seu principal trunfo: o computador Frank, dublado por Márcio Seixas, que teve sua voz marcada, entre outros trabalhos, por dar sonoridade a outra máquina, o Hal 9000, em “2001: Uma Odisséia no Espaço”. A relação travada entre a criatura e Leal, espécie de imperador retratado na novela e interpretado por Antônio Fagundes, é interessante e mostra as delícias e as agruras da tecnologia. Tudo isso a partir do dia a dia de um grande empresário da construção civil que se sente vigiado e controlado por conta do sistema de segurança desenvolvido para seu próprio prédio. Contraditório e, por isso mesmo, rico dramaturgicamente. Algo que pode ajudar a manter ou até mesmo elevar os 29 pontos de média e “share” de 51% conquistados já no primeiro capítulo. Apesar de tanto alarde em torno da promessa de interpretações distantes do naturalismo, “Tempos modernos” conserva várias características de novelas tradicionais que chamam bem mais atenção que o tom quase farsesco da trama. Um dos exemplos é a aposta não só no romance de mocinhos jovens, mas também no amor maduro e defendido por atores capazes de atrair o interesse dos telespectadores. Fernanda Vasconcellos e Thiago Rodrigues não estão mal na pele da determinada Nelinha e de seu “anjo da guarda” Zeca, mas não conseguem chamar tanto a atenção quanto Fagundes e Eliane Giardini na relação de amor e ódio vivida por Leal e pela professora de dança Hélia. A julgar pelos primeiros capítulos, o casal “turrão” de meia-idade deve roubar a cena e assumir o posto de casal principal da história. Algo que já fica sugerido inclusive na abertura, que traz os nomes dos dois na frente do elenco jovem. A discussão inicial da trama é a construção ou não do Titã II, espécie de “irmão” do – na ficção – maior prédio da América Latina, Titã. O contraponto do empresário Leal e suas filhas interesseiras Goretti e Regeane, de Regiane Alves e Vivianne Pasmanter, é o núcleo da Galeria do Rock. Se, de um lado, os cenários e a produção de arte impressionam, o elenco que compõe esse núcleo ainda não encontrou o tom certo para convencer na pele dos roqueiros. Gírias exageradas e esquecidas há anos ganham, no texto da novela, um ar ingênuo e ultrapassado. Outro ponto negativo está na dupla de vilões Albano e Deodora, de Guilherme Weber e Grazi Massafera. Ele se supera na pele de um ambicioso que lembra os personagens das tramas das 19 horas da década de 80, como “Tititi” e “Transas e caretas”, levemente exagerados e fora dos padrões da realidade. Já a moça, nitidamente, ainda não se sente à vontade na pele da megera sensual. A atriz parece mais preocupada em afastar o ar de mocinha com um tom de voz grave do que em fazer o texto soar natural em sua interpretação. Daí resultam cenas forçadas, marcadas por uma atuação robótica.

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