Quarta, 22 de Novembro de 2017

Filhos do coração

9 MAI 2010Por 20h:36

SCHEILA CANTO

Quando a maternidade é neglicenciada, por mães que estão mais preocupadas consigo mesmas do que com a educação dos filhos, é bem provável que estes tenham  comprometimento no desenvolvimento psicológico, prejudicando as atividades escolares e sociais, com aumento de somatização, depressão, agressividade e uso de drogas. E, delegar a função de mãe para terceiros é tudo que algumas mães conseguem fazer quando perdem o controle sobre seus filhos.

Maninho, Augusto, Eduardo, Júnior, Geleia, são exemplos de uma educação terceirizada. Eles, juntos a pelo menos outros 30 jovens e adolescentes, passam diariamente pelos cuidados da dona Eroltildes dos Santos, 45 anos, que há dez anos acolhe meninos em sua residência, no Bairro Coophavila 2. A casa da “Tia Erô” é o conhecido refúgio do bairro, onde muitos jovens vítimas de maus-tratos e abandono físico e afetivo encontram acolhimento.
Subsidiada por uma mesada de um salário mínimo, doado por um vereador, Erotildes conta que largou o emprego num salão de cabeleireiro para dedicar-se exclusivamente ao cuidado dos seus “filhos do coração”. Ela é separada, mãe de 3 filhos biológicos (Tuti, 27 anos, Shirlene, 26 anos e Alexandre, 18 anos). “Eles me ajudam no cuidado com os meninos. Aliás, tudo começou com meu filho mais novo, quando tinha 10 anos, que me pedia para acolher alguns amigos e fui percebendo a carência daqueles meninos, que às vezes já estavam envolvidos com drogas por falta de amor, educação afetiva e orientação religiosa”, acrescenta Eroltides.

Chamada por alguns de mãe e pela maioria de tia, Erô preocupa-se em oferecer a estes jovens, na faixa etária de 12 a 18 anos, todo o cuidado e atenção necessária para moldar o caráter de cada um e evitar que eles fiquem na rua, sob más influências.

“Muitos que estão aqui foram liberados pela própria mãe para morarem comigo; elas desistiram, abriram mão de cuidar deles por vários motivos e avaliaram que estavam melhor comigo. A maioria chega aqui sem nunca ter recebido uma palavra de carinho, como ‘eu te amo’. Todos sofreram rejeição, são muito carentes, boa parte sofreu maus-tratos, violência psicológica, etc...”, conta.

Numa casa simples de três quartos, Erô diz que há sempre espaço para quem chega em busca de uma palavra amiga, carinho e de acolhimento fraterno. “Na panela há sempre comida do dia, na geladeira não há supérfluo, mas o básico para um lanche da tarde. Num dos cômodos montei uma sala de aula com carteira e quadro doados por uma escola. Ali eles estudam, fazem tarefa e têm aula de reforço. Consigo alimentá-los, diariamente, graças à ajuda de muitos amigos e vizinhos. Até mesmo de alguns pais, que têm situação financeira melhor que a minha, mas seus filhos preferem viver aqui”, esclarece.

Quando perguntada como ela consegue manter estes jovens longe do principal fantasma que hoje assola as famílias (as drogas), Erô responde: “Dou amor com autoridade, aqui existem regras e limites, não autoritarismo. Educo-os dentro dos ensinamentos de Deus”, resume.
Erô encara sua dedicação de mãezona como uma missão divina. “Me sinto feliz e realizada porque já consegui, em nome de Jesus, tirar muitos jovens das drogas e evitar que tantos outros se envolvessem com o vício. Acredito que meu trabalho só tem efeito porque une amor, educação e espiritualidade”, enfatiza.

O trabalho de Erô é complementado com visitas às famílias para saber o que está acontecendo. “Em algumas ocasiões fiquei chocada pensando: o que esses meninos querem na minha casa? Aqui eles dormem num colchão no chão, enquanto na casa deles têm todo o conforto de um quarto individual. Só posso concluir que eles preferem comer arroz e feijão, mas terem carinho. O que importa para eles é o amor, a atenção, o afeto e não as coisas materiais”, conclui.

Erô também conta com a parceria de alguns amigos voluntários que, além de serem conselheiros dos meninos, também dão aula de violão e aulas de reforço de português e matemática.
A mãezona diz que há alguns meses também chegaram a sua casa algumas meninas, mas elas não dormem lá porque não tem espaço separado só para elas. 

Ao responder o porquê de assumir uma responsabilidade desta, Erô responde: “Perdi minha mãe quando tinha 8 anos, sei o quanto faz falta uma mãe. No caso destes meninos, a maioria é órfã de mães vivas. O Júnior, por exemplo, foi abandonado  quando tinha 2 anos. Hoje ele tem 18 e mora comigo. Outro, a mãe emancipou aos 16 anos para que pudesse morar comigo. Abriu mão dele, mas eu não abro mão de nenhum. Embora as mães biológicas não estejam nem aí para eles, eu estou muito aí para eles”, finaliza.

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