Sábado, 18 de Novembro de 2017

Famílias gastam mais sem planejamento

14 FEV 2010Por 05h:01
Eles estão no meio do caminho e consomem como nunca, o que despertou a fome da indústria nos últimos anos, incentivada por ações de estímulo econômico do governo. Eis a classe média brasileira, mais da metade da população. A arma poderosa dessa camada social é o consumo, que fez do mercado interno o salvador das empresas nacionais em 2009, enquanto as exportações despencavam durante a retração na economia mundial. Nesse caso, o antídoto da crise também os envenena. Por gastar demais, não sobra dinheiro para poupança. Para eles, a análise certa é essa: por ganhar pouco, não dá para poupar. O funcionário público Lindomar Pereira de Souza, 43 anos, conheceu a manicure Fátima Alves Amaral, da mesma idade, e passaram a viver juntos. Com os netos de Fátima, criados como filhos desde que nasceram, eles formaram uma família de classe média campo-grandense. O caixa deles é apertado. Os R$ 1.500 que Lindomar ganha cobrem as despesas, mas não permitem maiores voos no orçamento. Os bicos da esposa como manicure pagam suas despesas pessoais, mas não pesam nas receitas do casal. João Pedro, 10 anos, passou a estudar em uma escola pública para enxugar o orçamento, e não gostou da troca. “Lá tinha natação”, lembra. Maria Eduarda, a caçula de 7 anos, tem uma lista de desejos que inclui celular e televisão no quarto. A família sabe o que cada um quer, mas o assunto “poupar para ter” não é discutido. Uma pesquisa nacional aponta que, para cobrir decentemente as despesas de uma família como a deles, o salário mínimo deveria ser de R$ 2.040 – quatro vezes superior ao mínimo real, de R$ 510. Os gastos dos quatro seguem o padrão observado em Campo Grande. Um levantamento do Núcleo de Estudos e Pesquisas Econômicas e Sociais (Nepes), da Universidade Uniderp/Anhanguera, mostra que 32% do orçamento das famílias da Capital é destinado a gastos com habitação. As outras despesas mais pesadas são com alimentos (24,8%), transporte (13,8%) — a cidade tem uma das passagens de ônibus mais caras do País, a R$ 2,50 —, educação (10%), cuidados pessoais (7,3%) e saúde (7%). Com tantos “furos” no caixa, a família de Lindomar tem pouco tempo para lazer. A diversão é chamar os amigos para o churrasco no fim de semana. “Cada vez que sai, gasta, então é melhor ficar por aqui”, diz o funcionário público, encarregado de administrar as finanças. A esposa desconfia do talento de administrador de Lindomar: “Ele não faz contas, não pesquisa e não aceita minhas opiniões sobre dinheiro”, reclama. Os dois concordam que, para viver melhor, deveriam aumentar a renda familiar para R$ 3.500. Sobraria mais para lazer, educação dos filhos, informação, e outros investimentos em desenvolvimento pessoal. Ganhando menos que isso, eles precisam “contar muito o dinheiro”, como diz Fátima, e usar “táticas de guerrilha” para fechar o mês. “Quando vamos aos supermercados, as crianças colocam o que querem no carrinho, eu só olho. No caixa, eu tiro os brinquedos, e só ficam as comidas, nisso não dá para economizar”, conta a mãe/avó. Para se manterem no azul, eles controlam a conta do telefone fixo — a operadora oferece um valor determinado em ligações por mês —, transformaram o celular em “recebedor”, e, quando a saúde anda mal, recorrem ao sistema público. Mesmo com o orçamento magro, os planos para 2010 são trocar de casa, de móveis, e, se a renda aumentasse... “Ah, eu iria ao salão de beleza a cada 15 dias fazer pé, mão, cabelo, maquiagem e tudo o que tenho direito”, imagina Fátima.

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