Domingo, 19 de Novembro de 2017

CUSTO DE VIDA

Falta de boi para abate eleva preço da carne acima de 20%

1 SET 2010Por 06h:09
Carlos Henrique Braga

A falta de bois prontos para abate reduz o ritmo dos frigoríficos e, por consequência, provoca altas superiores a 20% na carne no varejo de Campo Grande. O quilo da picanha, peça nobre, já beira os R$ 27 em açougues da perifeira da cidade, onde os cortes costumam sair mais em conta. A pressão nos preços é comum na entressafra, período de chuva que precede a época de reprodução bovina, que costuma ocorrer entre julho e outubro. A má notícia é que, neste ano, os reflexos da entressafra vão se estender.
Segundo o analista de mercado da Rural Business, Julio Brissac, “dificilmente esse movimento (de falta de gado e alta nos preços) vai ser diferente nos próximos meses, não há registro de melhora na oferta de gado”. A demanda por carne só tende a crescer com a aproximação das festas de fim de ano.
O pesquisador Celso Correa, que mede a inflação de Campo Grande no Núcleo de Pesquisas Econômicas da Uniderp, não espera retração nos preços tão cedo. “A tendência é subir mais por causa da seca e entrar em outubro  nesses patamares. Se houver queda, não voltaremos aos preços baixos do começo do ano”, analisa o pesquisador.
Levantamento feito por Brissac mostra alta em todos os cortes. Filé e alcatra, de primeira, subiram 15% e 18%, respectivamente; os da traseira do animal, peito e paleta, considerados cortes de segunda, ficaram 10% e 12% mais caros no último mês.
No Bairro Marcos Roberto, periferia da cidade, loja de rede de açougues vende a picanha a R$ 26,64. Segundo o assessor técnico da unidade, antes da entressafra, o quilo do corte saia a R$ 24,98. “A variação foi uniforme, no geral nossos produtos subiram entre 10% e 15%”, explica. O frigorífico do açougue, que abastece três lojas na Capital, não consegue abater 250 animais por dia, como de costume. “Não tem boi suficiente. Tem dia que não conseguimos atingir nem metade da nossa escala de abates”, conta o funcionário. A concorrência com abatedouros clandestinos, mesmo reduzida, continua. “Não são muitos como antes, mas ainda existem. É difícil concorrer em preço com carne ilegal, mas o nosso cliente escolhe pela qualidade, não por preço”, avalia.

Cadê os bois?
O analista Julio Brissac aponta como principais motivos da falta de animais prontos para abate, a migração de produtores para atividades mais rentáveis; estoques de confinamento insuficientes e o prejuízo dos pecuaristas amargado por conta do excesso de chuva do ano passado.
“A perda de área para outras atividades, como a cana, é muito grande”, argumenta, “além disso, estoques de confinamento no Brasil inteiro, que nunca conseguiram suprir a demanda na entressafra, estão ainda mais baixos”.
Ele engrossa o coro que rejeita a hipótese de que pecuaristas estejam segurando boi nas fazendas para conseguir preços melhores: “Isso é uma grande besteira, na verdade os cortes subiram porque falta gado e a demanda é constante’.

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