Terça, 21 de Novembro de 2017

Esvaziado, MST recruta brasiguaios

5 MAI 2010Por 06h:05
BRUNO GRUBERTT, enviado especial a itaquiraí

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), esvaziado e enfraquecido no País, aproveitou-se do conflito fundiário no Paraguai  para reforçar sua mobilização no Brasil e vem atraindo famílias de brasiguaios para a região de Itaquiraí, que já enfrenta problemas causados por uma explosão demográfica de acampados e assentados. Os coordenadores do movimento esperam que, até o fim do ano, consigam reunir  mais 15 mil famílias em Mato Grosso do Sul. “O MST buscou as famílias através de palestras e está apoiando, fornecendo alimentação aos que não têm. É uma forma de fortalecer o movimento”, justificou um dos coordenadores do acampamento Antônio Irmão, situado às margens da BR-163, Evaldelson Orlando dos Santos. Atualmente, o acampamento tem cerca de 650 famílias, sendo 500 procedentes do país vizinho.

Eles são brasileiros, mas moram no Paraguai desde crianças, quando foram levados pelos pais em busca de terras mais baratas para plantar e viver melhor. Os pais se foram e deixaram os filhos. Alguns, há mais de 30 anos, ficaram no povoado chamado de La Terza, situado no município de Mariscal Francisco Solano López, próximo à fronteira com Foz do Iguaçu (PR). Há cerca de cinco anos, porém, os campesinos paraguaios (que invadem e ocupam propriedades não tituladas) utilizam táticas de guerrilha com objetivo de expulsar os cidadãos com dupla nacionalidade das terras do país vizinho. O resultado tem sido a superpopulação de acampados nas proximidades de Itaquiraí, município sul-mato-grossense localizado a cerca de 400 quilômetros de Campo Grande, e a preocupação das autoridades com relação aos serviços públicos oferecidos à população da cidade.

A fila de barracos de lona, nas cores preta e branca, some da vista quando se chega ao início do acampamento. Há muitas crianças no local e famílias ainda trabalham na construção de outros barracos, aguardando a chegada de novos “moradores” vindos do Paraguai. Alguns vêm em ônibus, nos próprios carros ou de carona, na ilusão de que encontrarão um cenário melhor do que o que enfrentam no país vizinho.

“Eles foram até lá, fizeram uma reunião com a gente e então resolvemos vir. Do jeito que estava não dava mais pra ficar”, contou o brasiguaio Daniel Hilschlig, 43 anos, que chegou ao acampamento no dia 11 de abril. Ele disse que as invasões, na maioria das vezes violentas, os fizeram perder o pedaço de terra em que viviam no Paraguai. “Quando vimos a oportunidade de mudar, não pensamos duas vezes, porque aqui parece que a terra pode sair logo”, afirmou o trabalhador rural, com esperança nos olhos.

Ele e os outros vizinhos enfrentam um verdadeiro conflito psicológico quando são provocados a comparar as condições atuais de vida, no acampamento, e as do lugar de onde vieram. “Aqui está melhor. Apesar de não termos mais nada, pelo menos tem tranquilidade”, conclui Gervásio da Silva, 31 anos, que chegou ao acampamento em abril, junto com a esposa, a paraguaia Yanice, de 26 anos, e com os três filhos pequenos. Os cinco dividem um barraco de, no máximo, seis metros quadrados mais uma cozinha improvisada, que compraram por R$ 70, assim como a maioria dos outros companheiros.
Para Yanice, a tranquilidade de viver em um lugar onde ela e os filhos não serão mais surpreendidos por homens armados com metralhadoras no meio da noite já representa vantagem em comparação ao lugar que ocupavam.

O confilto
Há cerca de cinco anos, conforme contam os trabalhadores rurais que vieram do Paraguai, começaram as invasões violentas nas pequenas áreas rurais, que antes eram suas propriedades. “Não é coisa de campesino, isso é mandado por gente grande”, defende Antônio Chella, de 65 anos, dos quais 30 passou no Paraguai.  Segundo ele, há juízes e delegados de polícia por trás das invasões. “É a pior polícia do mundo. Eles não gostam dos brasileiros. Então os campesinos invadem e pagam a renda da terra para os poderosos”, aposta.

O filho dele, Pedro Chella, de 38 anos, sofreu diretamente a pressão das autoridades paraguaias. Ele trabalhava de vigia noturno no povoado, quando foi surpreendido por invasores e atingido por um tiro de espingarda calibre 12.

Agora, ele e o pai buscam emprego e uma forma de sobreviver à beira da rodovia, até que a terra da reforma agrária seja distribuída. “Eu só penso em trabalhar. Sou velho, mas ainda sei carpir bem”, brinca Antônio. “Esperança a gente tem. Pode demorar, mas pelo menos vou ter um pedaço de terra que é meu”, disse o trabalhador.

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