Sexta, 24 de Novembro de 2017

Estranho zelo

17 JUN 2010Por 06h:09
O fim da impunidade, seria, com toda a certeza, um dos melhores remédios que este País poderia receber para finalmente deslanchar de forma plena. E, fim da impunidade significa cadeia para aqueles que cometem crimes “comuns” e, principalmente, àqueles que desviam dinheiro público, o pior dos males brasileiros. Neste contexto, a detenção de 45 dias para um adolescente que supostamente agrediu outro jovem durante uma festa é algo que se enquadra neste “mundo ideal”. E, foi exatamente isto que aconteceu em Campo Grande na última terça-feira, quando uma delegada esperou que o suposto agressor se apresentasse na delegacia para prestar depoimento e lhe entregasse a ordem de apreensão.

    Porém, basta uma rápida análise do caso para perceber que não foi por preocupação com o fim da impunidade que polícia e juiz mandaram o garoto de 17 anos para a "cadeia". A suposta vítima do perigoso agressor é filho de um desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (o nome está sendo preservado para manter sob segredo a identidade da vítima), que pessoalmente registrou a queixa contra o desafeto do filho. Se a delegada que pediu a detenção ou o juiz que a decretou agiram sob pressão do desembargador ou se foram tão zelosos para mostrar serviço ao integrante da mais alta corte, isto não se sabe. Porém, normalmente quando os envolvidos em qualquer pendenga criminal se mostram dispostos a colaborar com a investigação policial, eles permanecem em liberdade até que o caso seja julgado. O garoto, que tem mais 42 dias de “prisão” pela frente, apresentou-se à polícia para depor, acompanhado de familiares e de advogado, evidenciando que não estava se negando a isto. Também não há indícios de que  a “vítima” estivesse correndo algum risco pelo fato de o “agressor” continuar em liberdade.

    Embora as circunstâncias da agressão e  a gravidade não estejam claras,  as informações liberadas pela polícia, que faz questão de manter tudo sob o máximo sigilo, deixam claro que foi uma “simples” agressão. Quer dizer, nem mesmo tentativa de homicídio ocorreu, o que não significa que o autor não deva ser punido. Mas, se a partir de agora a polícia resolver colocar na cadeia todos aqueles que derem um soco em alguém, os órgãos públicos terão de parar de construir escolas e hospitais e investir tudo na edificação de presídios, a não ser que delegados, juízes e desembargadores abram mão de uma fatia de seus generosos salários e auxílios para que sobrem recursos que possam ser aplicados nestes setores fundamentais.

            Há exatos cinco anos foi criado o Conselho Nacional de Justiça, que neste período adotou medidas admiráveis para acabar com determinados desmandos no Judiciário do País inteiro. Dezenas de magistrados foram punidos com a aposentadoria precoce porque se consideravam acima do bem e do mal. Se este caso chegar ao CNJ, o que deve ocorrer rapidamente, possivelmente a “casa vai cair”, pois ao que tudo indica, ocorreu explícito tráfico de influência, algo extremamente comum em nossa sociedade, mas que não pode mais ser tolerado, principalmente em órgãos como o Judiciário, que deveria ser exemplo para o restante da sociedade.

    Mas, o principal nesta questão não é nem mesmo a prisão do adolescente em si. O intrigante é saber que se autoridades não tiveram escrúpulos de usar seu "poder" em benefício próprio numa "simples" briga de adolescentes, é de se imaginar o que pode acontecer em assuntos realmente relevantes.

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