Domingo, 19 de Novembro de 2017

Entre datas: a mulher real

19 MAI 2010Por 06h:06
Talvez fale de um lugar-comum, mas considerei irresistível refletir sobre o papel da mulher na contemporaneidade em meio à avalanche de propagandas a que tive acesso neste maio, no qual comemoramos o “Dia das mães” e não pude deixar de pensar no 8 de março “Dia internacional da Mulher”. Será que estamos tratando da mesma mulher nas duas datas? Parece que não. Embora as duas passem por um processo de apropriação comercial, elas partem de lugares diferentes e nos remetem a pensar sobre as contradições históricas do exercício de ser mulher na sociedade atual.

A mulher do 8 de março relaciona-se à história das trabalhadoras das industrias e das fábricas, à luta das socialistas “por pão e paz”. De 1914 a 1975 foram anos de inúmeras ações até que se institui o Dia Internacional da Mulher, em convenção da Organização das Nações Unidas. No século XIX na França ou nos Estados Unidos estava em pauta à afirmação dos direitos políticos e civis das mulheres. Já no século XX, novas demandas são incluídas, questionava-se a cultura patriarcal, mas também as instituições de esquerda que apregoavam o fim das classes e não conseguiam superar as relações opressoras dos homens sob as mulheres, a partir do que estavam lançadas as bases para a construção de concepções mais igualitárias. No Brasil vivemos intensamente na década de 60 e 70 a luta das trabalhadoras por creches, asfalto, saúde, etc – uma nova reedição da luta das socialistas – e das mulheres de classe média ouvimos as vozes que gritavam “liberdade, liberdade abra as asas sobre nós”, pois satisfeitas as necessidades básicas continuavam oprimidas pelas concepções machistas que queriam calar suas aspirações por serem respeitadas em suas singularidades.

Embora, atualmente, o que mais apareça seja a venda de rosas, não é possível passarmos por este dia sem pensarmos nos espinhos, isto é, nas causas das grandes lutas travadas ao longo da constituição do feminismo. Os laços hoje parecem tênues entre as lutas feministas e as comemorações do dia da mulher, porém simbolicamente elas estão presentes nas imagens veiculadas pela mídia: são-nos apresentadas mulheres seguras, profissionais, conquistadoras e acima de tudo condutoras de sua própria história.

No contraponto deste processo estão as comemorações do Dia das Mães, que ano a ano parecem desconsiderar o movimento anterior e nos apresentam em diferentes locais quase monoliticamente a mulher-mãe, a perfeita reprodutora, a que esquece de si mesma em nome da prole, mulher-mãe capaz de qualquer sacrifício para o bem-estar da família (já não basta atender a prole para ser mãe mesmo! Tem de ser mãe-esposa), a valorização exacerbada da abnegação e como corolário a desvalorização da mulher que não se conforme com este papel. A estas resta o sentimento de ser mãe-metade, incompleta e, pior, incapaz. E aquelas que apesar de se sentirem mulheres plenas não se sentem propensas ao exercício da maternidade? Estas são renegadas à condição de verdadeiras hereges. 

A contradição constatada nestes dois modos de comemorar a identidade feminina é parte deste processo constitutivo de ser mulher, porém no que se refere ao Dia das Mães parece haver um saudosismo de uma mãe-mulher que se existiu, não está mais por aqui. Nem mesmo aquelas que ficam em casa estão dispostas a abrir mão de si mesmas para o bem da família como se só esta possibilidade fosse a adequada. Deseja-se romper com o “jeito certo” de ser mulher, ou um papel único a ser exercido. Vive-se o tempo das múltiplas identidades e sem dúvida a maternidade é uma delas, não a única, nem a mais importante.

Faz-se necessário tratar seriamente as questões relacionadas à violência doméstica, à desigualdade no mercado de trabalho ou sobre as múltiplas possibilidades que temos de constituições familiares ainda extremamente desrespeitadas, ou seja, apesar do alarido em torno da mulher, o que prevalece é o silenciamento acerca das condições vividas por milhares de mulheres brasileiras, especialmente se considera as desigualdades de classe, raça, etnia e orientação sexual.

Enfim, seria bastante saudável para nossa sociedade se as datas comemorativas servissem para reflexões sobre a historicidade e os desafios de nos constituirmos mulheres cidadãs. Nem Hipólita, mãe da “Mulher Maravilha” que vivia num mundo exclusivamente feminino, nem a famosa “Amélia” de Ataufo Alves, servem-nos de modelo. Queremos nos reinventar sempre e termos os direitos constitucionais exercidos no cotidiano. Cidadania plena é o melhor presente para as mulheres reais, seja no 8 de março, seja no “Dia das Mães”.

Lucimar Rosa Dias, Profa. Dra. da UFMS/Campus de Três Lagoas, lucimar_dias@uol.com.br

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