Sexta, 24 de Novembro de 2017

Eliza e a violência contra a mulher

10 JUL 2010Por 20h:49
A Copa do Mundo chega à sua reta final e quando o mundo para e volta suas atenções para o outro continente, o caso de Eliza Samudio, a jovem supostamente assassinada pelo agora ex-goleiro do Flamengo Bruno, conseguiu ganhar mais espaço tanto nos cadernos de esporte quanto nas páginas policiais. Os ingredientes que permeiam este caso talvez não passassem pela cabeça nem do autor de novela mais experiente: dinheiro, fama, sexo, violência e morte.
Eliza seguiu o mesmo caminho que muitas jovens, atraídas pela fama e a independência. Os julgamentos de valor não demoraram a aparecer nas discussões, seja em sites, fóruns, conversas de amigos ou no trabalho. Termos pejorativos como “maria-chuteira”, “golpe-da-barriga”, e especulações sobre o passado da jovem tentam disseminar o paradigma machista e covarde que sistematicamente fere e assassina meninas e mulheres, buscando justificar o injustificável: a vítima torna-se ré.
Se Eliza era estudante, modelo, garota de programa, atriz de filme adulto, nada disso interessa para a Justiça brasileira. É ela - ainda que tardiamente - que dará voz a esta mulher que já não pode se defender. Grávida, Eliza disse ter sido sequestrada, agredida e forçada por Bruno a abortar em um país onde, salvo os casos previstos em lei, o aborto ainda é considerado uma prática criminosa. Alguma responsabilização para Bruno? Infelizmente não. Solidário, Bruno defendeu publicamente o colega de time Adriano que agrediu a noiva com a velha expressão: “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, e completou: “quem nunca saiu na mão com uma mulher?”. Os que não são covardes, poderíamos pensar.
Eliza lutou pelo direito de ser mãe e pagou com a vida. Não fosse o suposto pai da criança quem é, o caso poderia ter passado despercebido e sem a repercussão de agora, como tantos outros que acontecem todos os dias com as mulheres no mundo. É compreensível que a garota, tendo aparecido na mídia na ocasião da gravidez do filho de um ídolo de um dos maiores clubes do Brasil, gravado entrevista ao Jornal Extra sobre o caso –amplamente divulgado na internet- e feito boletim de ocorrência na delegacia da Mulher do Rio de Janeiro por conta das agressões e ameaças que sofreu de Bruno, o caso ganhasse a proporção que alcançou.
Eliza é, infelizmente, mais um número nas estatísticas de violência contra as mulheres.
Se o ano de 2009 foi marcado por casos de violência contra a criança, 2010 tem sido o ano da violência contra a mulher - e ainda estamos no mês de julho. O País mostrou-se comovido e indignado com os casos como o do menino João Hélio, arrastado até a morte por ladrões; a menina Isabela, atirada da janela do apartamento do Edifício London; a jovem Eloá, morta covardemente pelo namorado após um cárcere interminável; a pequenina Raquel, encontrada morta em uma mala em Curitiba.
 Com relação às mulheres, no início do ano o ex-jogador de futebol Jancken Ferraz esfaqueou e matou Ana Cláudia e sequestrou o filho em São Paulo; no Rio de Janeiro, uma briga de casal terminou com Jackeline Valadão morta ao ser atirada da varanda do prédio pelo marido; em Minas Gerais, a cabeleireira Maria Islaine foi morta a tiros em frente às câmeras de segurança de seu salão pelo ex-companheiro; recentemente a advogada Mércia Nakashima foi brutalmente assassinada e atirada na lagoa, cujo principal suspeito do crime é seu ex-noivo; e agora em Campo Grande, acompanhamos perplexos a triste e revoltante história da arquiteta Eliane Nogueira que foi terrivelmente assassinada e  o principal suspeito é seu marido.
O que presenciamos  pode ser chamado de barbárie? A palavra “bárbaro” tem origem grega βάρβαρος significa “não grego” e era como estes designavam os estrangeiros ou aqueles povos cuja língua materna não era a deles. A grosso modo, aquele que não era “civilizado” segundo o pensamento eurocentrista da época. Atualmente, o termo ‘barbárie’ significa ou caracteriza qualquer ato criminoso cujos requintes de perversidade, covardia e injustiça ultrapassam qualquer limite de entendimento ou civilidade, utilizando-se da força, violência, do poder, da crueldade e/ou premeditação. O caso de Eliza Samudio é no mínimo, estarrecedor e assombroso pelos terríveis desdobramentos que a polícia revela com o andamento das investigações. Sequestro, espancamento, morte e ocultação do corpo. E Bruno, impassível segue dizendo nada saber –com todas as provas apontando o contrário- e preocupado com os rumos de sua carreira profissional?
Vivenciamos diuturnamente os meios de comunicação registrarem casos de violência contra mulher, assassinatos, estupros e a barbárie - se é que assim podemos chamar – e a violência contra a mulher tem ganhado cada vez mais visibilidade. Segundo dados do estudo sobre a Violência no Brasil 2010, realizado pelo Instituto Zangari, em 10 anos cerca de dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil. Entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio, em sua maioria por motivações “passionais”. Só para se ter uma ideia do número de vítimas, basta imaginar que atualmente o  Morenão tem capacidade para 44.350 expectadores. É 12 vezes o número de mortos nos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos.
Medidas como a criação da Secretaria Especial de Política para as Mulheres tem desenvolvido ações no território brasileiro de enfrentamento a esta situação: o Pacto Nacional de Enfrentamento da Violência Contra a Mulher; o Disque-180 e a implementação de uma dos mais avançados instrumentos de defesa das mulheres, a Lei 11.340/2006, conhecida como a Lei Maria da Penha, prevê o aumento no rigor das punições de agressões contra mulheres ocorridas no âmbito doméstico ou familiar e a criação de redes de atendimento capacitadas para atender e registrar os casos de violência contra a mulher, com vistas ao aprimoramento das políticas públicas e defesa dos direitos das mulheres. O tema tem ganhado destaque nas ruas, movimentos sociais, no governo e na legislação, mas estes instrumentos sem uma mudança contundente do posicionamento da sociedade não se sustentam sozinhos. Precisamos nos posicionar contra os abusos cometidos às meninas e mulheres.
Não esqueçamos que em meio a estes acontecimentos, Bruninho, filho de Eliza completa quatro meses de idade. De acordo com a Associação Brasileira de Pediatria, com esta idade o bebê além de necessitar de cuidados médicos como consultas, vacinas, o leite materno ainda é seu único e exclusivo alimento e ele agora começa a brincar, segurar objetos e sorrir. Onde estará Eliza?
Precisamos demonstrar nossa indignação para que Mércias, Jackelines, Anas, Elianes, Eloás e Marias tenham direito à vida e não sejam mais motivos de preces silenciosas, cartazes de justiça, velas acesas, um país de cidadãos e cidadãs indignados e de órfãos da covardia.

Danieli Souza Bezerra, Cientista Social

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