Segunda, 20 de Novembro de 2017

Elas teimam em não querer dormir

5 FEV 2010Por CRISTINA MEDEIROS00h:42
Enquanto muita gente faz de tudo para ter uma boa noite de sono ou se livrar de eventual insônia, outros insistem em reduzir o tempo na cama para fazer o tempo render. Nesta época de carnaval, então, este comportamento fica mais evidente, principalmente entre os carnavalescos e foliões. Preparar as fantasias, ensaiar a escola, beber embalado ao som do axé ou dos sambas- enredo das agremiações, aproveitar a festa ao máximo. A manhã seguinte começa com a promessa de “tirar o atraso” no fim de semana. O folião se engana, boceja e segue em frente até a sexta-feira. O problema é que o organismo não funciona assim e os médicos alertam para o perigo da “sonorexia”, palavra esquisita que define o exagero da privação do sono que, nesse caso, acontece conscientemente. “Sonorexia é um termo que surgiu há alguns anos para definir a pessoa com desejo de não querer dormir; ela, conscientemente, prefere se privar do sono por achar que aproveita mais o tempo. E eu vejo que nesta época do carnaval o assunto ressurge. E, embora este termo não conste oficialmente da linguagem médica, é muito interessante”, explicou o médico neurologista Luciano Ribeiro Pinho Jr., do Instituto do Sono de São Paulo. Para não perder um só minuto da festa, muitos apelam para vários recursos, como beber energéticos, tomar muito café, “bolinhas”. Com isso, a agitação vai só crescendo e a vontade de dormir fica cada vez menor, até chegar à sonorexia. Este é o caso da costureira Arlete (nome fictício). Para dar conta da confecção de fantasias de um bloco carnavalesco e de uma escola do interior do Estado, ela apela para vários recursos. “Tomo café, bebo refrigerante, e outro dia minha amiga me ofereceu guaraná em pó. Tudo me ajuda a ficar mais acordada, porque o sono pode ser de menos, mas o dinheirinho no fim do mês é ‘de mais’”, conta. Mas, no final desta maratona (que já passou de um mês), Arlete confessa sentir-se mal. “Toda esta agitação e falta de sono deixam meu corpo um caco”. Duas décadas Outro que se considera um “sonoréxico inveterado” é o carnavalesco Alex Guedes, de 45 anos, presidente da escola de samba Unidos do Bairro Cuzeiro – ele também trabalha em teatro (GrupoPrisma) e confecciona figurinos. “Quando eu abraço uma causa, me envolvo totalmente, e nesta época a produção do que eu faço rende mais. Por isso preciso de mais tempo e menos sono”, conta. Alex explica que começou a se privar de mais horas de sono há 20 anos. “Comecei a alterar as minhas dormidas porque as responsabilidades se tornaram muitas, e a sensação que eu tinha era a de que não ia dar conta do recado. Então, a maratona do dormir tarde e acordar cedo começou. Hoje em dia eu durmo de 4 a 5 horas, no máximo”. Segundo o médico Luciano Ribeiro Pinho Jr., nem todas as pessoas que dormem pouco são sonoréxicas. “Existe o dormidor curto, nome que se dá à pessoa que, ao dormir por apenas 4 ou 5 horas, está apta a levantar e realizar suas tarefas sem se sentir cansada ou indisposta”. No caso do sonoréxico, acontece o contrário. “Ele se priva do sono que o corpo necessita – geralmente 7 ou 8 horas – e no dia seguinte vai ter sonolência, mal estar, sofrer mesmo as consequências”. Após 20 anos nesse ritmo, o carnavalesco Alex Guedes diz que já se acostumou e aproveita o tempo para escrever, desenhar, costurar. “Eu penso em tudo o que tenho pra fazer e otimizo o meu tempo; além disso, conto quantas horas terei de sono naquele dia. Durmo, de verdade, 4 horas por noite, mas bem dormidas, nem levanto para ir ao banheiro”.

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