Quarta, 22 de Novembro de 2017

Dengue

29 MAR 2010Por PAULO RENATO COELHO NETTO É JORNALISTA10h:29
Seja qual for o ponto de vista, racional ou emocional, o estágio que Campo Grande chegou com o atual surto de dengue é inadmissível. É a capital nacional da dengue, com o maior número de casos e mortes registradas em 2010. Inadmissível primeiro porque estamos em pleno século XXI, em um novo milênio, em uma cidade repleta de escolas, universidades, hospitais e infraestrutura urbana. Segundo porque a dengue é uma doença fruto do descaso, do relapso ou da ignorância. Portanto, absolutamente evitável. É preciso deixar de lado o argumento político de que a dengue é uma praga de verão. Na primavera do ano passado centenas de pessoas tiveram a doença na capital de Mato Grosso do Sul. O verão chegou e os números apenas aumentaram. Entramos no outono de 2010 e o mosquito está aí, se multiplicando diariamente, sem que seja dada uma solução para o problema. Os meios de comunicação anunciam que a Secretaria Municipal de Saúde notificou mais três mortes causadas pela dengue somente em março em Campo Grande. São sete mortes sob investigação: cinco em março, uma em fevereiro e outra em janeiro de 2010. Com isso, segundo as notícias, passa de uma dezena de mortes frutos da epidemia na capital. A teoria que chegaram a ensaiar de que a dengue é produzida nos terrenos e quintais de pessoas menos esclarecidas foi por água abaixo, literalmente, quando recentemente uma agente de saúde encontrou larvas do mosquito Aedes aegypti no quintal da casa do prefeito, Nelson Trad Filho. Além de chefe do Executivo municipal pela segunda vez consecutiva, o prefeito é médico, bem informado e culto. Políticos como o senador Delcídio do Amaral e o deputado estadual Londres Machado estão entre as mais de 26 mil pessoas contaminadas com a dengue nos últimos meses somente na capital de Mato Grosso do Sul. Capital que, a priori, deveria dar o exemplo para as demais cidades do interior de como se livrar do Aedes aegypti. Assim como as péssimas condições das rodovias de Mato Grosso do Sul devem entrar em pauta dos candidatos ao governo do Estado, ou do Senado, ou da Câmara Federal, o que eles pretendem fazer para livrar o povo dessa praga também deve entrar em discussão, nos discursos acalorados nos palanques e nos programas gratuitos de rádio de televisão. O eleitor não quer mais saber de político que faz politicagem, que chama o outro de ladrão ou bêbado nos comícios. Isso é coisa de corrutela. As pessoas querem ouvir propostas e soluções e já estão deixando de votar ao perceber o discurso vazio, destemperado, inócuo e demagógico do candidato. Talvez a solução para a dengue não passe por milhões e milhões de reais. A Prefeitura de São José do Rio Preto, no interior paulista, iniciou o combate a dengue com libélulas. Na semana passada cerca de trezentas mudas da planta Crotalaria juncea foram distribuídas para moradores interessados em participar da campanha para reduzir a incidência do mosquito na cidade. A ideia é que as flores atraiam as libélulas, que se alimentam das larvas e do mosquito Aedes adulto. Além de São José do Rio Preto, outra cidade da região, Monte Aprazível, adotou a planta no fim do ano passado. Em 2010 o município contabilizou onze casos de dengue. O fato é que as propagandas oficiais veiculadas para combater a dengue não causam o efeito desejado. Ou pela surdez que toda ignorância provoca ou pela falta de objetividade do material veiculado. Pela quantidade de mortes em Campo Grande, a dengue tem sido proporcionalmente pouco ou quase nada debatida. A essas alturas do campeonato, o negócio é ir se untando de repelente. Quem souber rezar que reze e quem puder colocar telas em casa que o faça. Com urgência. Não há luz no fim do túnel.

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