Domingo, 19 de Novembro de 2017

Corumbá

Decreto reconhece Banho de São João como patrimônio imaterial

21 JAN 2010Por SÍLVIO ANDRADE, CORUMBÁ05h:21
Festa única que cultua o banho da imagem do santo nas águas do Rio Paraguai, na noite sempre fria do dia 23 de junho, o São João de Corumbá, trazido pelos árabes em 1882, será reconhecido e perpetuado como Patrimônio Imaterial Histórico e Cultural de Mato Grosso do Sul. O decreto será assinado hoje pelo governador André Puccinelli, em visita à cidade. A iniciativa de tombar uma das maiores manifestações populares do Brasil foi da Prefeitura de Corumbá, cujo processo iniciou-se em 2007. Agora, o próximo passo será obter esse reconhecimento nacionalmente, por meio do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). “O tombamento do Banho de São João retrata a devoção religiosa e a manifestação cultural de mais de 100 anos nas ladeiras e ruas de Corumbá. Isso tem um significado maior do que imaginamos, é ter o Banho de São João como elemento vivo da cultura”, disse Carlos Porto, presidente da Fundação de Cultura e Turismo do Pantanal. Resgatado pelos festeiros e casas de rezas no final dos anos 90, depois que a prefeitura decidiu organizar a festa sem respeitar sua tradição, o São João pantaneiro cresceu, cada vez mais reúne adeptos e tornou-se um dos eventos de forte apelo religioso e turístico, atraindo milhares de pessoas no porto da cidade. A festa sempre ocorre entre os dias 20 e 24 de junho. No ano passado, mesmo com chuva, mais de 100 andores desceram a Ladeira Cunha e Cruz em procissão até o Rio Paraguai para o ritual do banho, que se reveste em um dos grandes momentos de fé e crença. Outro momento de emoção é o içamento do mastro, no dia 23, que ocorre com o sapateado e a cantoria dos cururueiros e suas violas de cocho. Promessa Aos 88 anos de idade, dona Albertina Cacilda Ferreira é uma das festeiras mais antigas, promovendo a festa há 60 anos para cumprir uma promessa. Ela conta que estava grávida e começou a sentir dores do parto no momento do foguetório no porto, na noite do dia 23 de junho. Colocou o nome do filho de João e pediu proteção, saúde e sabedoria ao santo. “Enquanto eu estiver viva, vou descer com o andor. São João sempre me atendeu, dando saúde para mim e estudo para meus filhos e netos, diz Albertina. Sua crença simboliza o fervor do povo corumbaense ao santo, no relato de pedidos atendidos, geralmente relacionados às doenças, e na preparação da festa, enfeitando as casas e realizando as novenas. Sacro e profano O ritmo carnavalesco que sucede a ladainha, na descida da imagem à beira do rio, não foi muito bem compreendida por um pároco, há algumas décadas, que chegou a proibir tal manifestação evocando os princípios da Igreja. Mas, prevaleceria o desejo popular de festejar – com todo respeito e devoção – a seu modo o São João Pantaneiro. A louvação tem dois momentos marcantes. Ouve-se, primeiro, a ladainha: “Deus te salve João/Batista sagrado/O teu nascimento/Nos tem alegrado”. Logo, a banda imprime um ritmo de frevo e o povo pula de alegria, cantando: “Se São João soubesse que hoje era o seu dia/ Descia do céu à terra/Com prazer e alegria”. O hino foi recolhido pelo professor Valmir Corrêa.

Leia Também