Domingo, 19 de Novembro de 2017

De Campo Grande ao deserto do Atacama

10 ABR 2010Por 20h:46

Paulo Cruz

 

Se você nunca sonhou com uma grande aventura por lugares exóticos e paisagens surpreendentes a bordo de um veículo, pode virar a página deste jornal. Mas, se seu desejo, como o de milhões de pessoas pelo mundo, é um dia se aventurar por aí, continue lendo esta matéria. Realizar esse sonho pode ser mais fácil do que imaginamos.

Foi isso que o engenheiro Sidnei Antonio Arioza e o professor universitário José Leonel Ribeiro, integrantes do moto clube "Motors Vivos", fizeram. A bordo de duas motocicletas, decidiram fazer um roteiro alternativo, diferente das tradicionais viagens de férias que geralmente nos levam a uma praia ou a lugar badalado em nosso País. O destino escolhido foi o deserto do Atacama, uma extensa área desértica entre as águas frias do Pacífico e as cordilheiras andinas. No lugar mais árido e de maior altitude do mundo, os dois encontraram abrigo no povoado de San Pedro de Atacama, a capital arqueológica do Chile.

Os objetivos da viagem eram, além de contemplar os encantos do deserto e as belas paisagens das monumentais cordilheiras dos Andes, conhecerem seus habitantes e seu modo peculiar de vida.

Não foi uma viagem tão confortável, já que as temperaturas encontradas pelo caminho variaram de quase 40 graus nos chacos paraguaio e argentino a 5 graus negativos em El Tatio, já perto da fronteira com a Bolívia, além de fortes ventos no altiplano andino e dos efeitos do "sorotchi", o mal de altitude.

 

O planejamento

Definido o destino, o passo a seguir foi cuidar da documentação, da manutenção das máquinas e da logística, estabelecer o percurso, os pontos de abastecimento, os pernoites e as atrações a visitar.

A internet foi uma grande fonte de informações. Foram consultados vários blogs de motociclistas que haviam realizado o percurso anteriormente. Outro aspecto fundamental destacado pelos aventureiros é conhecer a legislação dos países e providenciar a documentação e acessórios obrigatórios. No Mercosul não é necessário o passaporte, a apresentação da identidade civil (RG) é suficiente. Para quem vai visitar os países vizinhos, no entanto, aconselho a levar o passaporte. Desburocratiza os procedimentos nas aduanas, principalmente no Chile, e desestimula os policiais corruptos comenta José Leonel.

Outra dica é providenciar a carteira internacional de vacinação (vacina contra a febre amarela é obrigatória), o seguro internacional (seguro carta-verde fornecido somente por alguns corretores) e o documento do veículo em nome do condutor (se o veículo for alienado, deve-se providenciar junto à financeira a declaração de viagem ao exterior). Não é necessário o porte da carteira de habilitação internacional, a brasileira é aceita.

O percurso

A aventura começou no dia 16 de janeiro deste ano e durou doze dias. A maioria do percurso foi feito em asfalto de excelente qualidade. As máquinas também ajudaram, duas motocicletas Harley Davidson, uma Electra Glide Classic 1.450 cc e uma Softail Deluxe 1.600 cc.

Sem pressa de chegar, o primeiro destino foi Ponta Porã. Em Pedro Juan Caballero, do outro lado da fronteira, realizaram o câmbio, troca dos reais por guaranis a cotação de G$ 2.500,00 por real.

No dia seguinte seguiram em direção a Ybi Yau, a primeira cidade após Pedro Juan Caballero. No caminho, belas paisagens e ótima estrada. Chegaram a Assunção ao entardecer.

"Fala-se muito dos policiais corruptos do país vizinho. Mas, não tivemos nenhum problema. Fomos parados por diversas vezes e os patrulheiros foram sempre muito receptivos", comenta Leonel.

Em Assunção se hospedaram em um hotel cassino, onde puderam observar o grande fluxo de turistas brasileiros. Dos 80 apartamentos ocupados, 60 eram por brasileiros.

Na capital do Paraguai apreciaram a rica arquitetura que remonta os tempos da colonização espanhola. O Palácio Legislativo, com sua fachada imponente, expõe as contradições do Paraguai, ao dividir muros com a favela Villa Chacarita.

 

Argentina

No terceiro dia a dupla percorreu 479 km, de Assunção à pequena cidade de Las Lomitas, no chaco argentino, enfrentando temperaturas próximas dos 40 graus. Pela Ruta 81, estrada recentemente concluída e de excelente qualidade, cruzaram a Cordilheira dos Andes rumo ao Porto de Iquique, no Oceano Pacífico, já no Chile.

Um dos perigos da viagem, segundo os motociclistas, é a quantidade de animais soltos nas pistas, desde porcos selvagens, vacas, cavalos, lhamas e vicunhas.

Em Salta, capital da província de mesmo nome, houve dificuldade em encontrar vaga nos hotéis devido à temporada turística.

"Passeio imperdível pela beleza natural é o trajeto entre Salta e San Salvador de Jujuy, margeando a cordilheira dos Andes. A pista é estreita, com placas solicitando que se buzine nas curvas, já que em alguma delas, a largura não é superior a quatro metros A Cordilheira dos Andes se impõe pela beleza e imponência. Não há como as lentes das máquinas fotográficas e filmadoras captarem a amplitude do jogo de cores e formas da Cuesta Del Lipan, e da imensidão do Salar de Guayatayoc", comentam.

O ponto marcante da viagem, eleito pelos aventureiros, foi o pernoite em Susques, um povoado indígena, a 3.675 metro do nível do mar. Há dois bons hotéis a beira da estrada, ambos bastante disputados, e um ótimo restaurante, com cardápio invejável e impressionante, considerando a natureza inóspita e longínqua da região.

"Foi nessa cidade que comecei a sentir os efeitos do ‘sorotchi’, o mal de altitude. Com dor de cabeça e tontura, foi atendido em um posto de saúde, recém construído. Além de oxigênio, não houve nenhum tipo de medicação. Detalhe: mesmo para estrangeiros o atendimento é gratuito e imediato, sem fila de espera. O médico sugeriu que mesmo com tontura, seguisse até São Pedro de Atacama, onde a altitude é de 2.470 m", conta Leonel.

 

Deserto e seus encantos

Enfrentar a aduana chilena requer paciência. Diferente da Argentina e do Paraguai, o controle dos veículos de transporte de carga e de passageiros é realizado no mesmo local. E todo o fluxo do Porto de Iquique, no Chile, com destino à Argentina, Paraguai e inclusive para o Brasil, passa por lá.

Mesmo com toda a badalação internacional, San Pedro de Atacama mantém suas características próprias. Considerada um oásis no deserto, tem ruas estreitas de terra, casas, pousadas e comércios com paredes de barro e telhado de palha.

As construções mantêm as casas arejadas durante o calor do dia e conservam temperaturas agradáveis durante as noites e madrugadas, horários que os termômetros caem acentuadamente.

As principais atrações nos arredores de San Pedro de Atacama estão na cordilheira de Sal, com suas impressionantes formações naturais os Vale de La Luna, com formações que lembram o solo lunar e o Vale de La Muerte, pela sua extrema aridez.

A 90 km de San Pedro estão os gêiseres em El Tatio, a 4.300 metros de altitude. A melhor hora para observar o fenômeno é no começo da manhã, quando as temperaturas, dependendo da estação do ano, podem chegar a 15 graus negativos.

Com suas águas azuis e margens brancas de sal, outras atrações são as lagoas de água salgada, onde o turista não consegue afundar devido à salinidade da água.

Obrigatoriamente, ao visitar os gêiseres em El Tatio, o turista passa pelo povoado de Machuca, que ainda conserva a arquitetura do estado indígena de Tiuanaco, onde pode-se apreciar pastéis e churrasquinhos de carne de lhama ou chás de ervas, próprias da região.

 

O retorno

Devido à altitude, houve a diminuição do consumo e o aumento da autonomia das motos. Aliada à qualidade da rodovia e à exuberância das paisagens, os motociclistas conseguiram pilotar, sem descer da moto, 326 km de Passo de Jama, fronteira do Chile com a Argentina até San Salvador de Jujuy,

Na Argentina, o retorno foi pela Ruta 16, na Província do Chaco, onde foram "estimulados" pela primeira vez, a fazer uma contribuição com a "nafta da viatura da polizia". O patrulheiro ficou satisfeito com a contribuição de dois pesos de cada um, o equivalente a um real.

O último pernoite no território argentino foi na localidade de Presidente Sãez Pena, cidade simpática e progressista no Chaco argentino.

Com mais um pernoite em Assunção e outro em Ponta Porã, a aventura se encerrou em 27 janeiro, depois de percorridos 5.341 km em quatro países e muitas lembranças que serão levadas para o resto de suas vidas.

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