Quinta, 23 de Novembro de 2017

Culto a São João

21 JUN 2010Por 08h:02
Sílvio Andrade, Corumbá


Corumbá festeja na noite do dia 23 o Banho de São João, com descida de andores ao Rio Paraguai e muita animação no Porto Geral. A manifestação popular, este ano, transcende os rituais sacro-profanos que envolvem novenas, cantorias, procissões acompanhadas de bandas de sopro, crenças e ladainhas entrecortadas por ritmos que lembram o frevo. A celebração envolve ainda a discussão da sua perpetuação, que só ocorre na capital do Pantanal.
O resgate do “banho” nos últimos 15 anos não é suficiente para torná-lo perene na memória do povo. É preciso ação governamental para reconhecê-lo como patrimônio histórico e este será o tema do encontro que a prefeitura realiza dentro da programação. Gestores públicos, festeiros e agentes culturais debatem, na próxima segunda-feira, o processo de tombamento nacional do São João Pantaneiro.
Não basta preservar a festa sem o cururu e o siriri, ritmo e dança – não similares em outra região, apenas no Centro-Oeste – que fazem parte do seu enredo religioso. A Fundação de Cultura do Pantanal organizou a primeira roda do cururu, no dia 22, contando com a presença de 15 cururueiros da região, entre os quais dois índios da tribo Guató, habitantes da reserva Ínsua, no meio da planície, e quatro grupos de siriri.
Nesse contexto, está uma questão primordial: o plano de salvaguarda da viola de cocho, instrumento singular que anima as brincadeiras do cururu ao redor do andor. A viola fabricada artesanalmente pelos cururueiros e citada em relatos de expedições ao Pantanal no século 19 foi tombada em 2004 como patrimônio nacional, registrada no livro dos saberes do patrimônio imaterial brasileiro. Mas não é tudo.
“Com a popularidade do cururu e do siriri, descobertos pela mídia nos anos 90, o modo de tocar e de dançar e do fazer da viola foram se perdendo porque os grupos, que já eram poucos e formados por idosos, se preocupavam em apresentações ao público, deixando de ensinar os filhos e netos”, diz a superintendente da Fundação de Cultura, Êlo Urt. “O cururu e o siriri devem ser preservados a partir dos cantadores e dançarinos”.

Viola clássica
O encontro dos cururueiros e siririeiros de Corumbá e Ladário vai ser uma prosa sobre essa necessidade de envolver as famílias na preservação da manifestação. Uma contribuição tem sido dada pelo Moinho Cultural Sul-Americano, escola de artes que funciona no porto da cidade. Foi criada uma oficina de fabrico da viola, cujo mestre é o cururueiro Agripino Magalhães, 92, e o instrumento hoje integra a Orquestra Vale Música.
Em 2011 será organizado um encontro dos cururueiros de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso na Baía do Castelo (área ribeirinha próxima a Corumbá), que concentrou os primeiros tocadores vindos lá do Norte. Porém, é preciso organizar os grupos atuais e, também, reintegrar as comunidades que sempre conduziram o ritual. O Banho de São João não pode perder o seu apelo popular e os laços de afetividade e emocionais.
O reconhecimento do Banho de São João como um bem imaterial, cujo levantamento de informações e pesquisas é complexo, é um dos 27 projetos apresentados pela Prefeitura de Corumbá para se beneficiar da verba do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) das Cidades Históricas. O debate proposto envolve o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e as comunidades.

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