Quinta, 23 de Novembro de 2017

Contradições

21 MAI 2010Por 08h:30
Seguindo os passos da Câmara dos Deputados, os senadores aprovaram, sem pestanejar, aumento de 7,7% para aposentados do INSS que recebem mais de um salário mínimo e também mantiveram o fim do fator previdenciário. Não restam dúvidas de que todos os cerca de oito milhões de aposentados merecem reajuste maior que os 6,14% já concedidos pelo Governo. É certo, também, que todos os demais contribuintes da previdência têm motivos de sobra para comemorar o fim das severas medidas restritivas que reduzem o valor da aposentadoria para aqueles que não têm idade avançada e até quatro décadas de contribuição.

            Mas, até o mais ingênuo dos cidadãos sabe que esta repentina preocupação de deputados e senadores com os inativos e toda a massa trabalhadora, principalmente daquela que recebe um pouco melhor, não passa de demagogia eleitoreira. Há anos o Governo concede reajustes insatisfatórios àqueles que recebem mais de um mínimo. Nem por isso, contudo, o Congresso ousou desafiar o Executivo. Esta repentina coragem, adquirida por conta da eleição de outubro, pode até render algum ganho aos inativos, pois o próprio Governo já está deixando claro que não deve vetar o aumento, que custará em torno de R$ 1,8 bilhão por ano ao INSS, o que não chega a ser nenhum rombo inaceitável aos cofres federais.

            O fim do fator previdenciário, por mais simpático que possa parecer individualmente aos olhos de qualquer trabalhador, é uma verdadeira insanidade a médio e longo prazos, pois possibilita que pessoas se aposentem na "flor da idade". Na Grécia, por exemplo, uma das medidas que estão sendo adotadas é elevar para 65 anos a idade mínima para aposentadoria, além de cortes drásticos no valor dos benefícios. É evidente que não se pode adotar aqui os mesmos critérios de um país de primeiro mundo. Porém, não existe família brasileira, independentemente da classe social ou econômica, que não esteja constatando o aumento da longevidade no País. Por isso, tentar regredir no tempo é uma verdadeira contradição.

            E, de contradições é que está sendo marcada toda esta polêmica no Congresso. Tucanos e aliados, que há quase uma década patrolaram a oposição e aprovaram o fator previdenciário, agora, jogando para a plateia, entendem que ele deve acabar. Os petistas, entre eles o ex-ministro da Previdência Ricardo Berzoini, que durante anos barraram mudanças, agora também esqueceram todos os argumentos utilizados até então. A alegação é de que era necessário acabar de vez com as regras antigas, pois somente assim seria aberto o caminho para estabelecer novos critérios, menos rígidos. Isso mostra, mais uma vez, a absoluta falta de capacidade e de clareza da classe política sobre aquilo que ela quer para o País. Mais que isto, evidencia que não dá a mínima para o dia de amanhã. O que interessa é a aposta na reeleição. Se o sistema previdenciário quebrar e aqueles mesmos contribuintes que hoje comemoram o afrouxamento das normas ficarem a ver navios no futuro, isso pouco importa. Aumento anual da ordem de R$ 5,5 bilhões nas contas públicas também é detalhe, devem estar convencidos estes políticos. Agora, só falta o presidente, de olho na eleição de sua candidata, entrar na onda da irresponsabilidade e sancionar as medidas aprovados por deputados e senadores. Não será de se estranhar se agora os governantes vierem a público afirmar que tudo o que foi dito até agora foi engano e que é possível sancionar tudo aquilo que os congressistas aprovaram.

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