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Conselho quer criar diretrizes curriculares para o ensino religioso

Conselho quer criar diretrizes curriculares para o ensino religioso

AGÊNCIA BRASIL

19/08/2011 - 09h00
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Ao contrário de outras disciplinas, não há diretrizes nacionais ou parâmetros curriculares que definam o conteúdo a ser abordado nas aulas de ensino religioso das escolas públicas do país. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, definiu que cada estado deve criar normas para a oferta disciplina, o que abriu espaço para uma variedade de modelos adotados em cada rede de ensino. Para educadores e especialistas que estudam o tema, esse vácuo normativo impede a garantia de espaço igualitário para todos os credos. O problema começou a ser discutido este mês pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que espera definir algumas orientações mínimas para o ensino de religião.

“Nós temos detectado no conselho a necessidade de alguma orientação sobre a questão. Essa é uma preocupação nossa”, destaca o conselheiro César Callegari. O CNE elaborou um documento que servirá de base para as discussões. O texto aponta “uma clara e profunda anomia [ausência de regras] jurídica nessa matéria [a oferta do ensino religioso]. Como se não bastasse, prevalece, também, uma anomia pedagógica, em parte resultante daquela”. Há previsão de que o colegiado promova audiências públicas para ouvir os atores envolvidos no problema – representantes das religiões, secretários de Educação, pesquisadores e professores.

Segundo Callegari, não está descartada a possibilidade de o conselho definir também diretrizes curriculares. Entretanto, o próprio colegiado tem dúvidas de quais são seus limites de atuação diante do que está previsto na legislação brasileira sobre o tema. Pela LDB, os estados são os responsáveis por organizar e normatizar a oferta – diferentemente do que ocorre com as outras disciplinas do currículo. De acordo com ele, a LDB tem uma diretriz clara sobre os limites do ensino religioso. “Não pode servir a qualquer forma de proselitismo, desta ou daquela tendência, deste ou daquele credo religioso. Mas, infelizmente, isso não é sempre observado”, aponta Callegari.

Para o conselheiro, os parâmetros ficaram ainda mais confusos depois do acordo firmado entre o governo brasileiro e o Vaticano, em 2009. O Artigo 11 desse documento determina que “o ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”.

“Ele [acordo] estabeleceu um dispositivo que contraria a LDB e a própria Constituição brasileira, que veda qualquer forma de proselitismo, ao afirmar que se trata de ensino religioso que valorize a religião católica e outras religiões”, indica.

Estudo da Universidade de Brasília (UnB) identificou que no Rio de Janeiro, na Bahia, no Acre e no Ceará o ensino religioso é do tipo confessional – cujo objetivo é a promoção de uma religião, a depender da formação do professor, que precisa ser ligado a uma comunidade religiosa. Esse tipo de ensino tem caráter doutrinário. A antropóloga Debora Diniz, que coordenou a pesquisa, aponta que a falta de normas permite que se privilegie determinadas crenças, contrariando a legislação. Ela lembra que todos os livros didáticos distribuídos às escolas públicas pelo Ministério da Educação (MEC) passam por avaliações. Mas, no caso do ensino religioso, como as publicações não são distribuídas pelo governo, não há o crivo de especialistas sobre a adequação desse material.

“O Estado diz que criacionismo não é ciência, então se um livro de biologia contiver essa ideia, ele não vai para a escola. Mas nós não conseguimos fazer o mesmo no ensino religioso porque há a presunção de que o Estado não pode dizer o que é certo e errado”, aponta.

Segundo a coordenadora de Ensino Religioso da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, Maria Beatriz Leal, a orientação é que os professores abordem de maneira equilibrada todas as crenças. “A lei determina que o ensino seja separado por religião, de forma confessional, mas não temos professores suficientes para isso. Então, orientamos os profissionais para que abordem de maneira equilibrada todas as religiões e que não privilegiem nenhuma. Quando sabemos que isso ocorreu, chamamos o professor para conversar e reforçamos essa determinação.”

Procurado pela Agência Brasil, o MEC respondeu que defende o ensino religioso sob a ótica da filosofia e da sociologia e com distância do proselitismo.

Para o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper), o país carece de regras mais claras sobre o que deve ser discutido em sala de aula. A entidade acredita que é possível haver uma oferta plural e que respeite as diferentes manifestações religiosas presentes na cultura brasileira.

“Temos estados que conseguiram implantar muito bem, na legislação e na prática, a questão do respeito às diferenças, sem proselitismo. E há estados, como o Rio de Janeiro, que normatizaram o ensino confessional [cujo objetivo é a promoção de uma religião, com caráter doutrinário], contrariando a LDB”, diz o coordenador do Fonaper, Elcio Cecchetti.

“Nós defendemos que o ensino religioso é viável nas escolas e contribui para a formação do cidadão já que a questão religiosa não está à margem das questões sociais, tudo está interligado. Só não se pode trabalhar de uma maneira contraditória e confessional. Essa posição do CNE, de expedir diretrizes, vem em boa hora”, avalia.

O fórum já elaborou, por conta própria, diretrizes curriculares para orientar os professores nesse trabalho. O CNE, no entanto, não reconhece a validade do material por considerar que o documento “tira proveito da ausência e da contradição de normas para difundir pelo país sua pretensão regulatória”.

JOGO DO BICHO

Grupo de Razuk impunha terror a rivais com o uso de PMs da reserva

Investigação do Gaeco mostrou que organização criminosa tinha dois policiais militares para coagir rivais a mudarem de lado

02/01/2026 09h00

Irmãos e pai de Neno Razuk comandariam jogo do bicho ao seu lado

Irmãos e pai de Neno Razuk comandariam jogo do bicho ao seu lado Reprodução/Redes Sociais

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Investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), aponta que a suposta organização criminosa voltada ao jogo do bicho da família Razuk mantinha dois policiais militares da reserva como forma de coagir trabalhadores e impor terror aos rivais.

De acordo com a investigação, o grupo, que seria comandado pelo deputado estadual Roberto Razuk Filho (PL), o Neno Razuk, tinha entre seus funcionários os policiais Gilberto Luis dos Santos (Coronel) e Manoel José Ribeiro (Manelão), e ambos faziam a segurança da organização, com o uso, inclusive, da força.

“O caráter armado da organização criminosa investigada na Operação Successione emerge de diversos elementos probatórios, desde depoimentos de vítimas até apreensões físicas e análises de mensagens. O grupo não apenas tinha armamento, mas utilizava sua ostensividade e a presença de policiais militares (da reserva) para impor terror aos rivais, coagir trabalhadores a mudarem de lado na disputa pelo monopólio do jogo do bicho e, quiçá, obrigar os chefes rivais a sentarem na mesa para negociar”, diz trecho da investigação.

“A organização não se valia de armas esporadicamente. A organização contava com um braço armado em tempo integral. Desde reuniões a operações externas, as armas estavam presentes”, completou o Gaeco.

Em outro trecho, o MPMS aponta que a organização, que tentava ocupar o espaço deixado pela família Name no jogo do bicho de Campo Grande, após a Operação Omertà, tentava tomar o território do grupo vindo de São Paulo, que teria comprado a operação de Jamil Name e Jamil Name Filho.

“A tomada do território não seria diplomática, mas sim operacionalizada por intermédio de ações à mão armada. Vítimas relatam que a exibição de armas foi o meio utilizado para subjugar a resistência”, relata o MPMS.

Irmãos e pai de Neno Razuk comandariam jogo do bicho ao seu lado

ROUBOS

Para essa tomada à força do território, o grupo da família Razuk teria praticado três roubos no dia 16 de outubro de 2023 contra o grupo MTS, todos à mão armada e à luz do dia, como cita trecho da investigação.

“A organização criminosa, comandada por Neno Razuk, efetuou ao menos três assaltos muito similares em desfavor dos denominados recolhes, motociclistas responsáveis pela arrecadação diária dos valores provenientes do jogo do bicho nos diversos pontos em que atuam (à época trabalhando para outra organização, conhecida por MTS e vinda de São Paulo), executados à mão armada, todos na data de 16/10/2023, à luz do dia, contando com aparato especial para a investida, o que chamou a atenção das autoridades, que iniciaram as investigações que culminaram no ajuizamento de ação penal”, destaca investigação do MPMS.

Em outro trecho de conversa entre o promotor e uma das vítimas dos roubos aos malotes do grupo rival, Paulo Augusto Alves da Silva conta que, “ao ser abordado, o autor do crime levantou a camisa propositalmente para mostrar a arma na cintura, garantindo a entrega do malote sem reação”.

“Promotor: tá. E aí, como foi a abordagem? É, como que foi? Eu queria que o senhor explicasse com detalhes para a gente, porque a gente não tava lá, né? Paulo: é. Aham. Sim. Eles pararam ali. Tem um canteirinho em frente ali do motel ali. Eles encostaram o carro ali e desceu um já com a mão na cintura e de cara limpa, não veio nem com máscara, nada. E fizeram o assalto, levaram meu malote”, conta a vítima.

Ainda segundo o MPMS, a investigação do delegado Fábio Brandolise, da Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf), confirmou, ao analisar as imagens de segurança nos roubos, que os autores utilizavam armas no momento da abordagem.

“Embora não tenham sido apreendidas no momento das ações, o que é desnecessário segundo conhecida lição jurisprudencial, não há dúvida de que Gilberto Luis dos Santos (Coronel) e Manoel José Ribeiro (Manelão) portavam armas de fogo. Jamais negaram que o faziam, precisamente porque eram policiais militares da reserva”, diz o Gaeco.

O uso de arma, inclusive, teria sido confirmado pela dupla quando o Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras) os abordou em um residência no Bairro Monte Castelo, onde foram encontradas 705 máquinas de cartão que seriam utilizadas para o jogo do bicho.

“Por exemplo, Gilberto Luis dos Santos relatou, em juízo, que no momento da abordagem policial na residência, Manoel José Ribeiro ‘estava com a arma na cintura’. Além disso, na fase inquisitorial, Manoel José Ribeiro declarou estar na posse de uma pistola PT100, calibre .40”, diz outro trecho da investigação.

APREENSÃO

Após a apreensão dessas maquinhas, que ocorreu em outubro de 2023, pouco antes de ser deflagrada a primeira fase da Operação Successione, matéria do Correio do Estado mostrou que o grupo da família Razuk logo se reestruturou e conseguiu retomar as atividades com ainda mais força.

Conforme a investigação do MPMS, um mês após o Garras tomar 705 maquininhas do grupo, eles já tinham conseguido adquirir outras 800 máquinas e também atuavam em outros endereços na Capital.

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Reportagem do Correio do Estado mostrou que o grupo chamado de MTS – uma abreviação diferente para Mato Grosso do Sul – seria ligada à facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

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ATENDIMENTO

Prefeitura promete recompor estoque de medicamentos

Após MPMS ameaçar possível intervenção na Saúde de Campo Grande, a gestão afirma que realizou a compra de 32 milhões de unidades de remédios

02/01/2026 08h40

Gerson Oliveira/Correio do Estado

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A Prefeitura Municipal de Campo Grande afirmou que realizou, nos últimos dias, uma grande compra de medicamentos que promete recompor os estoques de remédios nas unidades de saúde da Capital. A medida era uma das determinações impostas pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) para evitar que houvesse um pedido judicial de intervenção na saúde pública da cidade.

Ao Correio do Estado, a Prefeitura informou que adquiriu, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), “cerca de 32 milhões de unidades –entre comprimidos, ampolas e frascos – com chegada prevista para os próximos dias, garantindo o atendimento da Rede Municipal de Saúde”.

“No que se refere ao abastecimento de insumos e medicamentos, a Secretaria Municipal de Saúde esclarece que a regularização está em fase final. As entregas por parte dos fornecedores já estão em curso, com programação para atingir cerca de 90% de cobertura. Nos últimos dias, após a conclusão de etapas administrativas, licitatórias, orçamentárias e financeiras, foram emitidos aproximadamente 60 empenhos de medicamentos”, disse a prefeitura, em nota.

“O acompanhamento dos estoques é permanente, com medidas contínuas para evitar desabastecimentos, como aceleração de processos licitatórios, reprogramação de itens que não obtiveram êxito em certames anteriores e fiscalização rigorosa dos prazos de entrega”, completou a Prefeitura.

A resposta veio após uma reportagem do Correio do Estado mostrar que o Ministério Público não descartava a possibilidade de entrar na justiça para pedir a intervenção do Estado na saúde pública do município em razão das constantes faltas de medicamentos, falta de vagas e demora em atendimentos em geral.

“A Prefeitura informa que a saúde pública do município segue em processo contínuo de reorganização e fortalecimento, com ações estruturantes já em execução e resultados concretos em andamento”, disse ainda a nota.

No dia 19 de dezembro de 2025 o Procurador-Geral de Justiça do MPMS, Romão Avila Milhan Júnior, afirmou, durante encontro com a imprensa, que o órgão poderia recorrer a essa medida extrema caso a prefeitura não conseguisse resolver problemas apontados pelas promotorias ligadas à saúde pública.

Segundo Milhan Júnior, a princípio, a esperança era de que esses problemas fossem resolvidos em consenso entre o MPMS, a Prefeitura de Campo Grande e o governo do Estado. No entanto, caso isso não seja possível, o órgão pode entrar com pedido na Justiça para ações mais drásticas.

“Nós recebemos e já vinha uma linha de representações para eventual intervenção do Estado na Saúde do Município de Campo Grande. Isso está sendo colocada à mesa, o próprio Município busca fazer um trabalho para que não chegue a essa medida, que compete ao procurador-geral, lógico, depois de uma decisão do Tribunal de Justiça. Mas a busca é por soluções consensuais, porque não adianta nada jogar os problemas no colo do Poder Judiciário”, declarou procurador-geral de Justiça.

“Mas o problema está na mesa, é de conhecimento do Ministério Público, é de cobrança diária e permanente dos colegas que atuam na Saúde, com um trabalho muito próximo com o secretário de Saúde do Estado. Tem no âmbito do Município o comitê gestor, que esteve hoje presente aqui e também por uma necessidade de ter um gestor único”, completou Milhan Júnior, lembrando que, até aquele momento, a Saúde de Campo Grande era regida não pela figura de um secretário, mas de um comitê.

Segundo investigação do Ministério Público de MS, até Dipirona estava em falta em unidades de saúde - Foto: Gerson Oliveira/Correio do Estado

NOVO SECRETÁRIO

Outro ponto que foi atendido pela Prefeitura após a divulgação da reportagem foi o anúncio de um secretário de saúde.

Na terça-feira, a prefeita Adriane Lopes (PP) anunciou em suas redes sociais, ato oficializado horas depois em edição extra do Diário Oficial de Campo Grande (Diogrande), a nomeação de Marcelo Luiz Brandão Vilela para o cargo de secretário de Saúde.

Desde o início de setembro do ano passado, a Pasta vinha sendo administrada por um comitê gestor, criado após a exoneração de Rosana Leite do cargo. À época, a mudança ocorreu em meio a uma série de reclamações da população sobre a prestação dos serviços de saúde na Capital.

O comitê passou a ser coordenado por Ivoni Kanaan Nabhan Pelegrinelli, ex-secretária de Saúde de Iguatemi, e tinha como missão diagnosticar falhas do sistema e promover uma reestruturação emergencial da Pasta. O grupo, formado ainda por outros cinco gestores, assumiu com previsão inicial de seis meses de duração.

Quando a Pasta da Saúde ainda era comandada pelo Comitê, a prefeitura informou que o grupo havia promovido “ajustes importantes na gestão, incluindo revisão de contratos, reorganização de fluxos e equipes, visitas técnicas às unidades e implantação de sistemas modernos, como o e-SUS Farmácia, que amplia a eficiência e a transparência da assistência farmacêutica”.

Apesar de novo na gestão de Adriane, não é a primeira vez que Marcelo Vilela assume a Sesau. Ele já foi secretário municipal de Saúde de Campo Grande entre janeiro de 2017 e março de 2019, além de ter atuado em cargos de direção clínica hospitalar e coordenação de programas de residência médica.

*Saiba

Além dos problemas de falta de medicamentos e demora em atendimentos, outro problema apontado pelo MPMS era a situação da Santa Casa de Campo Grande, que também teve um desfecho após acordo milionário.

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